H2O Água: Segundo dados estatísticos
divulgados, o Brasil detém mais de 10% da reserva
de água doce do mundo. Quais são os cálculos
oficiais em relação a isso? Num tempo em
que a água passa a representar uma riqueza mineral
mais importante até que o petróleo, como
o País vai administrar essa reserva?
José Machado: Dependendo
da fonte, os dados divergem ligeiramente, mas usualmente
se tem adotado o valor de 12% para fixar a representatividade
brasileira em termos de reserva mundial de água
doce. Esse valor significa que o Brasil é o
país de maior disponibilidade
desse bem em todo o planeta e 70% dessa disponibilidade
está na Bacia Amazônica.
A
partir da aprovação
da Lei 9433, em 1997, a chamada Lei das Águas,
o Brasil vem sistematicamente desenvolvendo uma política
nacional de recursos hídricos com o intuito
de proteger os seus recursos.
Item
importante dessa política é a
construção do Sistema Nacional de Gerenciamento
de Recursos Hídricos, que envolve o Conselho
Nacional de Recursos Hídricos, a ANA, os sistemas
estaduais de recursos hídricos, os comitês
de bacia etc.
Dentro
dessa política, a aprovação
recente do Plano Nacional de Recursos Hídricos é um
fato marcante, pois permite a visualização
do planejamento sistemático de curto, médio
e longo prazos, com estabelecimento de metas e prioridades.
H2O Água: Recentemente a Lei das Águas
completou dez anos. Aponte as maiores conquistas a
partir da sua promulgação.
Machado: Creio
que boa parte da resposta a essa pergunta está colocada
na questão anterior. Entretanto, podemos acrescentar
que hoje a ANA está consolidada; o Conselho
Nacional de Recursos Hídricos está consolidado;
vários estados da federação avançaram
bastante nas suas políticas estaduais de recursos
hídricos e a ANA vem colaborando, por meio de
programas como o Proágua, para fortalecer essas
políticas; mais de 100 comitês de bacia
estão em funcionamento em todo o País.
Temos, repito, um Plano Nacional de Recursos Hídricos;
estamos desenvolvendo a regularização
de usos em várias bacias hidrográficas
relevantes, como, por exemplo, o cadastramento de usuários
na Bacia do Rio São Francisco. Todos os instrumentos
de gestão, inclusive a cobrança pelo
uso da água e o funcionamento da agência
de bacia, estão implantados nas bacias dos rios
Paraíba
do Sul e Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A ANA
está desenvolvendo o Sistema Nacional de Informações
sobre Recursos Hídricos, o qual, num médio
prazo, estará totalmente operacional favorecendo
o planejamento e a gestão dos recursos hídricos.
Os avanços nesses dez anos de vigência
da lei 9433 são, portanto, a meu ver, extraordinários.
H2O Água: O
Brasil foi o primeiro país
da América Latina a aprovar o Plano Nacional
de Recursos Hídricos com metas de uso racional
da água
até 2020. Quais são as principais metas
e cenários do PNRH e o que já está sendo
feito?
Machado: No
momento, a ANA e a Secretaria Nacional de Recursos
Hídricos estão debruçadas
exatamente sobre a tarefa de detalhar o plano e atribuir-lhe
metas quantificáveis, com vistas a incluí-lo
no próximo Plano Plurianual do Governo (2008/2011).
A grande vantagem do plano é exatamente dar
um horizonte temporal para as ações que
já vêm
sendo desenvolvidas há vários anos, dentro
do que preconiza a lei 9433, muitas delas já descritas
na questão anterior.
O
cenário ideal é harmonizar
as tendências de crescimento econômico
do País com a oferta de água de boa qualidade
para os múltiplos usos. Enfim, água para
todos. Isso será possível se lograrmos,
no curto, médio e longo prazos, consolidar a
gestão
e o planejamento de recursos hídricos no País. É disso
que trata o plano.
H2O Água: Como
o senhor analisa a situação do País
em relação à qualidade
da água existente e da que é efetivamente
oferecida à população?
Machado: A
situação mais complicada está nas
grandes conglomerações urbanas, sobretudo
nas regiões metropolitanas. Em geral, nessas
situações
a maioria, senão a totalidade, dos mananciais
está degradada pela poluição,
exigindo dos sistemas de abastecimento um esforço
muito grande em investimentos e tecnologias para garantir
um mínimo de qualidade da água oferecida à população
conectada à rede de abastecimento público.
Há casos extremos em que a solução
para certas cidades ou regiões metropolitanas é buscar
bons mananciais em outras bacias hidrográficas,
por intermédio de sistemas de transposição
de águas, como é o caso, por exemplo,
da cidade de São Paulo, que capta na bacia do
rio Piracicaba, através do Sistema Cantareira,
50% das suas necessidades.
Recentemente,
o governo federal passou a exigir das companhias
de saneamento que esclareçam à população
sobre os padrões de potabilidade de água
oferecida.
H2O Água: Quais são os maiores
problemas existentes na administração
dos recursos hídricos? Há muito desperdício?
Machado: Ainda
temos no Brasil uma cultura social que considera
a abundância de água algo permanente
e infinito, com exceção, certamente,
das populações do Nordeste semi-árido.
Mesmo em regiões de bacias hidrográficas
superexploradas e degradadas, onde a escassez e os
conflitos pelo uso da água já são
um problema, o comportamento social ainda é de
desperdício.
A verdade é que a água ainda é um
bem relativamente barato, favorecendo um comportamento
perdulário. Há, porém, indícios
de que essa situação está mudando.
Por outro lado, nos sistemas públicos de abastecimento
de água, perdura ainda, na maioria dos casos,
uma gestão ineficiente para o controle de perdas
na rede, constituindo-se num problema a ser enfrentado.
H2O Água: E a poluição vem sendo
controlada adequadamente? O que ainda é necessário
fazer?
Machado: A
poluição dos corpos
d’água
no Brasil está ainda longe de estar controlada
adequadamente. A performance do setor de saneamento
tem sido muito pífia nesse item e o grande vilão
nessa história são os esgotos domésticos
urbanos. Apenas 35% da população urbana
brasileira conta com serviço de coleta de esgotos
e desse total apenas o correspondente a 10% é tratado.
Ficamos cerca de 20 anos sem contar com um marco regulatório
para o setor de saneamento e isso dificultou o fluxo
de investimentos para o setor. A aprovação
recente desse marco regulatório pelo Congresso
Nacional traz a expectativa de que o quadro vai melhorar.
H2O Água: Existe
um projeto em andamento para a revitalização
do rio São Francisco.
Em que estágio se encontra? Quais são
os próximos passos?
Machado: Esse
não é um
programa pilotado pela ANA, portanto fica problemático
para eu responder a essa questão. É mais
apropriado que fosse endereçada aos Ministérios
do Meio Ambiente e da Integração Nacional,
ambos responsáveis pelo projeto. Todavia, a
ANA tem sido responsável pela aplicação
de pequena parcela de recursos financeiros alocada
no projeto, mais precisamente para a elaboração
do cadastro de usuários daquela bacia. E o que
posso dizer a respeito é que, salvo na parte
mineira da bacia, nos demais estados o cadastro está praticamente
concluído. O recém-lançado Programa
de Aceleração do Crescimento do Governo
Federal prevê investimentos significativos para
a revitalização do rio São Francisco,
principalmente para obras de tratamento de esgotos,
recomposição
de matas ciliares etc.
H2O Água: Sabe-se
que grande parte da população brasileira
ainda não
tem acesso à água tratada e esgoto. Quais
são as ações da ANA em relação
ao fornecimento de água de qualidade? E em relação
a saneamento?
Machado: A
missão da ANA é cuidar
dos mananciais para garantir segurança hídrica
para os diversos usos da água. Para realizar
essa missão, a agência lança mão
dos instrumentos de gestão e planejamento de
recursos hídricos previstos na Lei 9433, em
parceria com os estados da federação
e com os comitês
de bacia. Já a tarefa de levar água até o
consumidor final é do setor de saneamento. Assim,
se um curso d’água está poluído, é tarefa
do setor de recursos hídricos, no qual se inclui
a ANA, trabalhar para melhorar essa situação,
a fim de que o setor de saneamento possa captar uma água
bruta melhor, tratá-la convenientemente e levá-la
até o consumidor final. Por outro lado, o setor
de saneamento precisa tratar os esgotos para não
continuar poluindo os cursos d’água. Se
a oferta de água bruta estiver deficitária
em relação à demanda, é tarefa
do setor de recursos hídricos equacionar essa
situação, introduzindo uma gestão
eficiente e desenvolvendo estudos e ações,
sobretudo de infra-estrutura hídrica, para promover
o equilíbrio.
H2O Água: Já existe
consciência entre a população sobre
a necessidade de preservar a água? E em nível
industrial e institucional?
Machado: Já respondi
parte dessa pergunta anteriormente. Volto ao tema acrescentando
que, recentemente, a WWF Brasil, entidade ambientalista
internacional, divulgou uma pesquisa realizada no Brasil
dando conta de que a população brasileira
está mais consciente sobre a necessidade do
uso racional da água. Entretanto, as boas práticas
ainda não ingressaram, a meu ver, definitivamente
no cotidiano dos brasileiros, a não ser em faixas
bem restritas. É muito comum ainda vermos pessoas
desperdiçando água em coisas como lavar
carros e calçadas, por exemplo. No nível
industrial, tem havido avanços setoriais. Em
geral, as grandes empresas são as que mais têm
incorporado a consciência da responsabilidade
social, criando programas internos para tratar da questão
do uso sustentável dos recursos hídricos.
Já o setor que mais retira água para
o seu uso é a irrigação, apesar
de ainda se irrigar pouco no Brasil, apenas 3,5 milhões
de hectares, ou seja, pouco mais de 10% do nosso potencial. É uma
atividade que tende a avançar muito no País
nos próximos anos, dado o dinamismo do setor
de agronegócios, e precisa incorporar melhor
o conceito de uso racional da água. |