É praticamente
impossível, diante
do contexto da competitividade que rege o dia-a-dia
das indústrias do mundo globalizado, dissociar
produtividade e eficiência de responsabilidade
ambiental. Por isso, cada vez mais, iniciativas em
prol da natureza são incorporadas como imperativos
capazes de garantir espaço no mercado.
Entre
as práticas adotadas para que as produções
não
causem danos ao ambiente está o tratamento dos
efluentes, que além
de permitir a devolução - sem grandes
impactos - da água à natureza,
possibilita sua reutilização, evitando
desperdício e escassez
no futuro. Os tratamentos dos efluentes gerados em
processos industriais, ou provenientes de esgoto sanitário
e refeitório, são realizados
em duas etapas.
No
primeiro momento são tratados
por meio da adição de produtos
químicos. Estes garantem a correção
do pH, a floculação
e a clarificação do líquido. “De
acordo com dados técnicos da literatura especializada,
esta etapa, geralmente chamada de tratamento físico-químico,
pode garantir eficácia entre
60% e 75%. Ou seja, por não conseguir eliminar
completamente as partículas
coloidais para que os valores de Demanda Bioquímica
de Oxigênio
(DBO) e Demanda Química de Oxigênio (DQO)
se encaixem nos padrões
permitidos, o tratamento demanda uma segunda etapa,
a biológica, capaz
de elevar a eficiência do tratamento a 95%”,
retrata Rinaldo Mendes, da Rinen, que oferece ao mercado
sulfato de alumínio ferroso e isento,
cloreto férrico, sulfato férrico, poli-cloreto
de alumínio
entre outros coagulantes com propriedades de potencialização
na separação de sólido e líquido
em função
de processo físico-químico em meio aquoso.
Também oferece
bactérias e enzimas para decomposição
de carga orgânica
da água, ácido fluossilícico,
para fluoretação
da água; hipoclorito de sódio e dióxido
de cloro, para desinfecção
da água: ortopolifosfato de sódio, que
atua como seqüestraste
de ferro além de anti-espumante, dispersante
e polímeros adensadores
de lodo e potencializadores de floculação.
Ações
preventivas
Mendes enfatiza, no entanto, que apesar de os produtos
químicos terem, sem dúvida, um papel
importante na tarefa de melhorar o ecossistema, sem
o comprometimento da população, a vontade
política e a conscientização
das empresas, o tratamento de efluentes continuará com
o seu foco voltado para o efeito do problema e não
para a sua causa. Tal cenário não impede,
contudo, o crescimento anual do mercado de tratamento
de água e esgoto que, em sua opinião, é de
3% do PIB nacional. “Trata-se de um desenvolvimento
introvertido em razão da má distribuição
de recursos para os estados”, concluiu.
José Eduardo
Gobbi, gerente de vendas da Divisão
Purate, da Eka Chemicals do Brasil, concorda que o
potencial do mercado é promissor e que os volumes
de investimentos estão aquém dos necessários. “O
tratamento de efluentes é insuficiente no Brasil
e a situação é incompreensível
já que a realidade perdura há mais de
25 anos, com especulações não
efetivadas”. Para o gerente, a ilusão
de um mercado promissor e crescente se desfez em função
de burocracias e barreiras políticas de governos,
que não definiram rumos e estratégias
seguras para investimentos de médio e longo
prazo. “O Brasil ainda não considera importante
valores sociais que envolvam ações preventivas”,
comenta o gerente da Eka, que desenvolveu o Purate,
solução de clorato de sódio e
peróxido de hidrogênio para a geração
de dióxido de cloro, utilizado na desinfecção
de efluentes gerados em estações de tratamento
industriais e de esgotos domésticos.
O
desenvolvimento do setor, para Sérgio Belleza,
gerente nacional de vendas da Argal Química
- que disponibiliza ao mercado entre outros itens,
uma ampla linha de coagulantes e floculantes além
de itens para biorremediação - demanda
mudanças fiscais e tributárias. “Incentivos
voltados para os projetos de reúso seriam capazes
de tornar as estações de tratamento mais
baratas e, assim, impulsionar o crescimento do mercado
de efluentes”.
No
entanto, aos olhos de Paulo Lemos, gerente de negócios
da divisão de tratamento de águas industriais
da Buckman Laboratórios, a demanda por projetos
de reuso de água começa a crescer devido
ao aumento do custo do metro cúbico da água
tratada e das limitações de descarte.
Mas, por existir um potencial limitado pela falta de
subsídios, o gerente da Buckman, que fabrica
anti-espumantes, polieletrólitos, controladores
de odores, microbicidas e bionutrientes justifica a
restrição de aplicações
e oportunidades à área industrial, que
também expõem, em função
de condições financeiras desfavoráveis,
a criatividade das fornecedoras para adotar práticas
e produtos diferenciados, que permitam operar dentro
dos limites de eficiência e segurança
ambiental.
Outra
empresa do setor é a Unniroyal
Química,
que por meio de sua linha de produtos oferece, principalmente
ao setor privado, polímeros floculantes em pó e
emulsão; anti-espumantes base água e
base óleo; coagulantes orgânicos e inorgânicos
e corretores de pH. “Os órgãos
públicos, por estarem limitados a licitações
ainda não prezam pela qualidade, mas a realidade
vai começar a mudar pela intensificação
dos órgãos fiscalizadores”, opina
o diretor comercial da empresa, Juliano Vieira Amorim.
Apesar
do crescimento aquém de seu potencial,
o setor é contemplado com o desenvolvimento
de novos químicos e com a adequação
de outros já existentes. “O balanceando
de formulações para determinados clientes
ou segmentos é hoje mais comum que a eventual
formulação de produtos, capaz de atender
solicitações específicas”,
expõe Amorim.
Custos
X benefícios
Outra circunstância, segundo Lemos, da Buckman,
pode demandar o desenvolvimento de um novo item. Mais
lenta e cara que aquela que visa encontrar soluções,
de forma rápida e eficaz, para problemas apresentados
pelos clientes, a pesquisa de novas moléculas
ou formulações podem ser geradas de forma
pró-ativa com a intenção de surpreender
o mercado.
Contudo,
em todas as situações,
os produtos são avaliados em função
da eficácia
que apresentam, por meio de testes laboratoriais. “A
preocupação dos governantes e empresários
com custos tornou-se premissa no setor e, para que
haja equilíbrio com a qualidade do produto,
as ofertas devem sempre considerar custo versus benefício,
por metro cúbico tratado”, pondera Mendes,
da Rinen.
Amorim,
da Unniroyal explica que as avaliações
dos produtos se dão por meio de adições
ao sistema, normalmente em processos de dosagens automáticas.
São realizados jar tests (testes de jarro) em
laboratório, para determinar previamente as
dosagens, posteriormente reguladas em planta.
Antes
de iniciar um jar test é preciso que as
características do efluente sejam avaliadas,
para que os coagulantes, neutralizantes e polímeros
a serem utilizados no início dos testes sejam
escolhidos. “O ramo de atividade da indústria é preciso
ser considerado assim como sua procedência, a
necessidade do cliente, a existência de sistemas
antigos em operação, entre outros”,
assinala Belleza, da Argal.
Em
consonância com
a demanda de dias, meses e até anos necessária
para o desenvolvimento de um novo químico estão
os elevados e, muitas vezes, impeditivos custos. Na
Buckman, cerca de 4,5% de seu faturamento é destinado à pesquisa
de novos produtos enquanto na Rinen, perto de 3% de
seu faturamento anual é dispensado para novos
itens. “É, importante lembrar, contudo,
que todo desenvolvimento, e suas implicações
financeiras, está intimamente ligado à possibilidade
e facilidade de obtenção de matéria-prima”,
explica Mendes, da Rinen.
E,
como em todos os setores, o incremento da demanda
poderia ser uma boa solução
para a diminuição
de custos. Mas para isso acontecer é necessária
a maior participação do saneamento público.
Afinal, a maioria das empresas – pelo menos as
de grande porte – tem feito seu dever de casa,
e o setor público está ficando para trás.
Muitas cidades brasileiras não possuem hoje
saneamento tornando o esgoto doméstico o grande
poluidor atual do Brasil.
“Todo efluente industrial
e doméstico deveria ser tratado se não
por consciência ecológica pelos aspectos
legais”, opina
Belleza, da Argal, ao se referir à lei 997,
de 31 de maio de 1976, que dispõe sobre a prevenção
e controle da poluição
do meio ambiente no Estado de São Paulo e a
fiscalizações
como a da Companhia Estadual de Tecnologia e Saneamento
Básico (Cetesb),
com relação a padrões legais para
efluentes líquidos
através dos artigos 18 e 19A.
No
entanto, esperar que o cenário do saneamento
seja ideal em um País que não possui dinheiro
nem para básico é, para muitos, ilusão
de otimistas que defendem suas esperanças sob
a alcunha de um círculo vicioso, onde a falta
de saneamento pode promover doenças que demandam
a construção de novos hospitais para tratá-las. |