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Brasil, 5 de Fevereiro de 2012
 
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Desenvolvimento em ritmo lento
 

Prática utilizada cada vez em escala mais larga, o tratamento de efluentes vem possibilitando a reutilização inteligente da água, precavendo a escassez.

 
Renata Bernardis
 

É praticamente impossível, diante do contexto da competitividade que rege o dia-a-dia das indústrias do mundo globalizado, dissociar produtividade e eficiência de responsabilidade ambiental. Por isso, cada vez mais, iniciativas em prol da natureza são incorporadas como imperativos capazes de garantir espaço no mercado.

Entre as práticas adotadas para que as produções não causem danos ao ambiente está o tratamento dos efluentes, que além de permitir a devolução - sem grandes impactos - da água à natureza, possibilita sua reutilização, evitando desperdício e escassez no futuro. Os tratamentos dos efluentes gerados em processos industriais, ou provenientes de esgoto sanitário e refeitório, são realizados em duas etapas.

No primeiro momento são tratados por meio da adição de produtos químicos. Estes garantem a correção do pH, a floculação e a clarificação do líquido. “De acordo com dados técnicos da literatura especializada, esta etapa, geralmente chamada de tratamento físico-químico, pode garantir eficácia entre 60% e 75%. Ou seja, por não conseguir eliminar completamente as partículas coloidais para que os valores de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Demanda Química de Oxigênio (DQO) se encaixem nos padrões permitidos, o tratamento demanda uma segunda etapa, a biológica, capaz de elevar a eficiência do tratamento a 95%”, retrata Rinaldo Mendes, da Rinen, que oferece ao mercado sulfato de alumínio ferroso e isento, cloreto férrico, sulfato férrico, poli-cloreto de alumínio entre outros coagulantes com propriedades de potencialização na separação de sólido e líquido em função de processo físico-químico em meio aquoso. Também oferece bactérias e enzimas para decomposição de carga orgânica da água, ácido fluossilícico, para fluoretação da água; hipoclorito de sódio e dióxido de cloro, para desinfecção da água: ortopolifosfato de sódio, que atua como seqüestraste de ferro além de anti-espumante, dispersante e polímeros adensadores de lodo e potencializadores de floculação.

Ações preventivas
Mendes enfatiza, no entanto, que apesar de os produtos químicos terem, sem dúvida, um papel importante na tarefa de melhorar o ecossistema, sem o comprometimento da população, a vontade política e a conscientização das empresas, o tratamento de efluentes continuará com o seu foco voltado para o efeito do problema e não para a sua causa. Tal cenário não impede, contudo, o crescimento anual do mercado de tratamento de água e esgoto que, em sua opinião, é de 3% do PIB nacional. “Trata-se de um desenvolvimento introvertido em razão da má distribuição de recursos para os estados”, concluiu.

José Eduardo Gobbi, gerente de vendas da Divisão Purate, da Eka Chemicals do Brasil, concorda que o potencial do mercado é promissor e que os volumes de investimentos estão aquém dos necessários. “O tratamento de efluentes é insuficiente no Brasil e a situação é incompreensível já que a realidade perdura há mais de 25 anos, com especulações não efetivadas”. Para o gerente, a ilusão de um mercado promissor e crescente se desfez em função de burocracias e barreiras políticas de governos, que não definiram rumos e estratégias seguras para investimentos de médio e longo prazo. “O Brasil ainda não considera importante valores sociais que envolvam ações preventivas”, comenta o gerente da Eka, que desenvolveu o Purate, solução de clorato de sódio e peróxido de hidrogênio para a geração de dióxido de cloro, utilizado na desinfecção de efluentes gerados em estações de tratamento industriais e de esgotos domésticos.

O desenvolvimento do setor, para Sérgio Belleza, gerente nacional de vendas da Argal Química - que disponibiliza ao mercado entre outros itens, uma ampla linha de coagulantes e floculantes além de itens para biorremediação - demanda mudanças fiscais e tributárias. “Incentivos voltados para os projetos de reúso seriam capazes de tornar as estações de tratamento mais baratas e, assim, impulsionar o crescimento do mercado de efluentes”.

No entanto, aos olhos de Paulo Lemos, gerente de negócios da divisão de tratamento de águas industriais da Buckman Laboratórios, a demanda por projetos de reuso de água começa a crescer devido ao aumento do custo do metro cúbico da água tratada e das limitações de descarte. Mas, por existir um potencial limitado pela falta de subsídios, o gerente da Buckman, que fabrica anti-espumantes, polieletrólitos, controladores de odores, microbicidas e bionutrientes justifica a restrição de aplicações e oportunidades à área industrial, que também expõem, em função de condições financeiras desfavoráveis, a criatividade das fornecedoras para adotar práticas e produtos diferenciados, que permitam operar dentro dos limites de eficiência e segurança ambiental.

Outra empresa do setor é a Unniroyal Química, que por meio de sua linha de produtos oferece, principalmente ao setor privado, polímeros floculantes em pó e emulsão; anti-espumantes base água e base óleo; coagulantes orgânicos e inorgânicos e corretores de pH. “Os órgãos públicos, por estarem limitados a licitações ainda não prezam pela qualidade, mas a realidade vai começar a mudar pela intensificação dos órgãos fiscalizadores”, opina o diretor comercial da empresa, Juliano Vieira Amorim.

Apesar do crescimento aquém de seu potencial, o setor é contemplado com o desenvolvimento de novos químicos e com a adequação de outros já existentes. “O balanceando de formulações para determinados clientes ou segmentos é hoje mais comum que a eventual formulação de produtos, capaz de atender solicitações específicas”, expõe Amorim.

Custos X benefícios
Outra circunstância, segundo Lemos, da Buckman, pode demandar o desenvolvimento de um novo item. Mais lenta e cara que aquela que visa encontrar soluções, de forma rápida e eficaz, para problemas apresentados pelos clientes, a pesquisa de novas moléculas ou formulações podem ser geradas de forma pró-ativa com a intenção de surpreender o mercado.

Contudo, em todas as situações, os produtos são avaliados em função da eficácia que apresentam, por meio de testes laboratoriais. “A preocupação dos governantes e empresários com custos tornou-se premissa no setor e, para que haja equilíbrio com a qualidade do produto, as ofertas devem sempre considerar custo versus benefício, por metro cúbico tratado”, pondera Mendes, da Rinen.

Amorim, da Unniroyal explica que as avaliações dos produtos se dão por meio de adições ao sistema, normalmente em processos de dosagens automáticas. São realizados jar tests (testes de jarro) em laboratório, para determinar previamente as dosagens, posteriormente reguladas em planta.

Antes de iniciar um jar test é preciso que as características do efluente sejam avaliadas, para que os coagulantes, neutralizantes e polímeros a serem utilizados no início dos testes sejam escolhidos. “O ramo de atividade da indústria é preciso ser considerado assim como sua procedência, a necessidade do cliente, a existência de sistemas antigos em operação, entre outros”, assinala Belleza, da Argal.

Em consonância com a demanda de dias, meses e até anos necessária para o desenvolvimento de um novo químico estão os elevados e, muitas vezes, impeditivos custos. Na Buckman, cerca de 4,5% de seu faturamento é destinado à pesquisa de novos produtos enquanto na Rinen, perto de 3% de seu faturamento anual é dispensado para novos itens. “É, importante lembrar, contudo, que todo desenvolvimento, e suas implicações financeiras, está intimamente ligado à possibilidade e facilidade de obtenção de matéria-prima”, explica Mendes, da Rinen.

E, como em todos os setores, o incremento da demanda poderia ser uma boa solução para a diminuição de custos. Mas para isso acontecer é necessária a maior participação do saneamento público. Afinal, a maioria das empresas – pelo menos as de grande porte – tem feito seu dever de casa, e o setor público está ficando para trás. Muitas cidades brasileiras não possuem hoje saneamento tornando o esgoto doméstico o grande poluidor atual do Brasil.

“Todo efluente industrial e doméstico deveria ser tratado se não por consciência ecológica pelos aspectos legais”, opina Belleza, da Argal, ao se referir à lei 997, de 31 de maio de 1976, que dispõe sobre a prevenção e controle da poluição do meio ambiente no Estado de São Paulo e a fiscalizações como a da Companhia Estadual de Tecnologia e Saneamento Básico (Cetesb), com relação a padrões legais para efluentes líquidos através dos artigos 18 e 19A.

No entanto, esperar que o cenário do saneamento seja ideal em um País que não possui dinheiro nem para básico é, para muitos, ilusão de otimistas que defendem suas esperanças sob a alcunha de um círculo vicioso, onde a falta de saneamento pode promover doenças que demandam a construção de novos hospitais para tratá-las.
 
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