Diante
dos constantes alertas ambientais e dos elevados
gastos com planos emergenciais, o governo, que desde
2003 priorizava, com pouca verba, o combate à desertificação,
este ano decidiu, de fato, colocar o assunto na pauta
de seus orçamentos. Autorizou para o Programa
de Ação Nacional de Combate à Desertificação
(PAN) o montante de R$ 11,3 milhões, um aumento
de dez vezes em relação ao ano passado.
Afinal, segundo João Bosco Senra, secretário
de Recursos Hídricos do Ministério do
Meio Ambiente (MMA), é melhor prevenir que
remediar. E, nesse caso, o remediar demandaria a supressão
das necessidades de 32 milhões de habitantes
(18,6% da população do País) que
residem nos 1.338.070 quilômetros quadrados que
compõem as regiões desertificadas, caracterizadas
pela degradação do solo, decorrente de
mudanças climáticas e agravada pela ação
humana.
Engenheiro
civil e sanitarista, Senra também é co-presidente
da Rede Interamericana de Recursos Hídricos, e Ponto focal da Convenção
das Nações Unidas de Combate à Desertificação-UNCCD. Foi
presidente da Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte, em
Minas Gerais, de 2001 a 2002, diretor geral do Instituto Mineiro de Gestão
das Águas-IGAM (1998-2000) e Secretário Municipal de Meio
Ambiente de Belo Horizonte (1993-1996).
Nesta
entrevista, o secretário diz que a reversão
da situação nessas áreas, que compreendem
nove estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais e do
Espírito Santo, vai além da garantia de água
para a população. Ajudará, certamente,
a reverter a situação da pobreza no País. |
Revista
H2OÁgua: No que consiste o relatório
de implementação do Programa Nacional
de Combate à Desertificação (PAN),
elaborado durante três anos pelo Ministério
do Meio Ambiente? E qual o teor do atlas das áreas
suscetíveis à desertificação?
João
Bosco Senra: O relatório é um
balanço das ações
feitas pelo governo no período de implantação do programa.
O programa foi aprovado e entregue ao secretário executivo da Convenção
das Nações Unidas de Combate à Desertificação,
em 2004.
Já o atlas é o retrato das regiões suscetíveis à desertificação,
sob aspectos econômico, social e ambiental. É composto por mapas
que apontam a realidade e a diversidade da região pelo ponto de vista
geológico, da vegetação e das atividades econômicas,
entre outras. Ele aponta e facilita todo o processo de ação e planejamento.
Revista
H2OÁgua: Já existe
um cronograma de atividades previsto? E expectativa
de investimentos?
Senra: A elaboração
do PAN considerou as verbas planejadas para os Planos
Pluri-anuais (PPA) anteriores. Com base nesses orçamentos
traçamos
planejamentos mais precisos e ganhamos o envolvimento
dos estados, que também inseriram a desertificação
em seus cronogramas orçamentários. O
orçamento autorizado, este ano, para o PAN,
aumentou dez vezes em relação ao ano
passado, passando de R$ 1,1 milhão em 2006 para
R$ 11,3 milhões em 2007. Contudo, o combate à desertificação
não se resume a um programa específico,
com uma verba determinada. Trata-se de uma ação
complexa, capaz de promover resultados em função
de várias atividades que convergem para efeitos
que vão interagir com o programa de combate
a pobreza. Uma iniciativa que garanta energia elétrica à população
do interior do nordeste, por exemplo, ajuda a diminuir
a demanda por lenha, ou seja, ajuda a combater ações
que possam promover danos ao solo e ao ambiente.
Revista
H2OÁgua: Quais são hoje as regiões
desertificadas ou em processo de desertificação?
Qual a extensão territorial envolvida e quais
os critérios utilizados para classificá-las
assim?
Senra: As regiões desertificadas são
compostas por nove estados do Nordeste, o norte de
Minas Gerais e do Espírito Santo, o que equivale
a uma extensão territorial de 1.338.070 quilômetros
quadrados. Fazem parte dessa área, que representa
15,7% do território brasileiro, 1.482 municípios,
onde vivem 32 milhões de habitantes, o equivalente
a 18,6% da população do País. É uma
das áreas de semi-árido mais populosa
do mundo.
Com
relação à classificação
das regiões desertificadas, os critérios
considerados pela ONU se aplicam às áreas áridas,
semi-áridas e sub-úmidas secas, qualificadas
pelo grau de pluviometria e evaporação.
A ação humana nessas áreas, suscetível à identificação,
agrava e acelera esse processo.
Revista
H2OÁgua: Estima-se que hoje perto de
31 milhões de habitantes (17% da população
brasileira) povoem as áreas suscetíveis à desertificação.
O problema da desigualdade do acesso à água
e ao esgoto vai ser completamente sanado? Em quanto
tempo?
Senra: O PAN trabalha de maneira integrada.
Em sua convenção, o combate à pobreza é explícito.
Por isso, sem dúvida, ações de
saneamento, que vêm sendo priorizadas, são
ações de combate à pobreza. O
Plano de Aceleração do Crescimento prevê,
para este ano, investimentos na área de saneamento
como nunca existiram no País.
Daremos
continuidade ao Proágua, criado em 1998,
com o intuito de garantir que a população
do semi-árido nordestino e de Minas Gerais tenha
acesso à água nos períodos de
seca, por meio da construção de obras
de infra-estrutura, como barragens, adutores e canais.
Outra
iniciativa que terá continuidade é o
Programa Um Milhão de Cisternas, que prevê a
construção de cisternas que acumulem
a água da chuva captada nos telhados e garantam
estoque para os períodos de estiagem. Também
estamos dando andamento ao Programa Água Doce,
que garante a dessalinização das águas
do nordeste, onde a salobridade é elevada.
E
todas estas iniciativas estão interligadas,
pois o PAN estimula a valorização de
ações voltadas para a qualidade de vida
das pessoas e que, conseqüentemente, ajudam a
evitar a desertificação.
Sem
dúvida
o governo tem trabalhado em várias
ações para assegurar água em qualidade
e quantidade para toda a população. Por
isso, temos certeza de que o problema vai ser sanado.
Mas hoje não podemos dizer quanto tempo vai
demorar para isso acontecer, porque é um déficit
que existe há muitos anos. Não teremos
uma completa reversão da situação
antes de 2010 porque faltam condições
operacionais em muitas prefeituras, mas sem dúvida
em 2015 vamos atingir as metas do milênio na
questão que envolve o saneamento, que prevêem
a redução pela metade, em relação
aos valores de 1990, da porcentagem de pessoas sem
acesso a saneamento.
Revista
H2OÁgua: Se as medidas necessárias
para combater a pobreza nessas áreas não
forem adotadas rapidamente, o Brasil pode correr o
risco de ter de enfrentar as conseqüências
de uma migração em massa?
Senra: Sem dúvida. Esse é um problema
que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. Nossas
avaliações têm mostrado que as
medidas que estão sendo tomadas pelo governo
nessas áreas, priorizadas em razão do
baixo Índice de Desenvolvimento Humano, estão
sendo revertidas em aumento da renda da população
e, portanto, estimulando a fixação das
pessoas nessas regiões.
Revista
H2OÁgua: A que podemos atribuir a principal
causa da desertificação no Brasil?
Senra: A causa da desertificação é um
processo natural, mas a ação do homem
acelera em muito esse processo. O desmatamento, o mau
uso do solo e da água são alguns exemplos.
Revista
H2OÁgua: O problema não é novidade
para o Brasil. Então, por que só agora
estamos buscando resolver a questão, já que
quanto mais se protela reparar a degradação
mais altos os custos e maiores as dificuldades na reversão
do problema?
Senra: Certamente é mais barato prevenir que
remediar. Desde 1997 a desertificação
faz parte da pauta de discussões do governo,
mas só em 2003 o tema foi realmente priorizado.
Revista
H2OÁgua: Combater a desertificação
pode ajudar a reverter a perda da biodiversidade? Como
podemos estabelecer a correlação entre
as duas questões?
Senra: Sem dúvida, desertificação
em curso significa perda de solo e redução
da vegetação, o que fatalmente resulta
em diminuição da fauna e da flora da
região. Então, a interligação
entre as duas é clara: o combate à desertificação
ajuda a reverter a perda da biodiversidade.
Revista
H2OÁgua: Como garantir a durabilidade
e a sustentabilidade das ações que envolvem
o programa?
Senra: Por meio de controle social, participação
das comunidades e da sociedade em geral. Se as pessoas
não compreenderem que esse não é um
problema somente do governo e se mobilizarem em prol
de soluções reais, o prejuízo
será de todos. O sulista, por exemplo, que não
convive com a desertificação, vai conviver
com pessoas que migraram para o seu estado em razão
dela, vai disputar emprego e espaço com essa
pessoa.
Revista
H2OÁgua: Qual a importância para
o Brasil em ter sido escolhido o coordenador na elaboração
de planos de combate à desertificação
e degradação de solo em nações
que integram a Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP)?
Senra: Apesar de o Brasil ter sido um dos últimos
países da América Latina a elaborar seu
plano de combate à desertificação,
foi um dos mais completos, já que envolveu a
participação de vários setores
do governo e da sociedade e, assim, passou a ser referência
em todo o mundo. É claro que o tamanho da área
envolvida acaba sendo considerado como uma referência,
mas hoje positiva, e não negativa, como era
até 2003.
Revista
H2OÁgua: E qual a importância
em realizar trabalhos em conjunto com os outros sete
países que compõe a CPLP? Por que se
diz que o combate à desertificação
e a seus efeitos é uma das condições
para determinar o índice de crescimento econômico
dos países da região nas próximas
décadas?
Senra: A intenção de realizar trabalhos
em conjunto com os outros sete países que compõe
a CPLP considera o fato de existirem semelhanças
como língua e história, o que facilita
a troca de experiências e informações
voltadas à reversão do processo de desertificação,
que resulta na perda de solo, água e produção,
que obviamente vai implicar em perdas econômicas.
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