Sem
sombras de dúvidas o Plano de Aceleração
do Crescimento (PAC) reserva boas perspectivas para
o saneamento brasileiro. O Ministério das Cidades
prevê para o setor investimentos de R$ 40 bilhões
entre 2007 e 2010. Serão R$ 12 bilhões
do Orçamento Geral da União (OGU); R$
20 bilhões dos fundos de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS) e Amparo ao Trabalhador (FAT);
e R$ 8 bilhões investidos por Estados, municípios
e prestadores dos serviços. Acredita-se que
o montante contemplará 24,5 milhões de
brasileiros com água encanada, 25,4 milhões
com coleta e tratamento de esgotos e 31,1 milhões
com coleta e destinação adequada de resíduos
sólidos.
Do
momento de boas-novas também
participa a Lei de Consórcios -
nº 11.107, de 2005 que, regulamentada no dia 17
de janeiro de 2007, prevê a
prática da gestão associada de serviços
de saneamento básico
por meio de ações conjuntas de municípios
entre si, com ou sem a participação do
Estado e da União.
Aguardada
há mais de
20 anos, a Lei de Saneamento foi motivo de mais comemorações.
Sancionada em 5 de janeiro de 2007 ela não resolve
o problema da titularidade da concessão, objeto
de uma velha disputa entre Estados e municípios,
mas estabelece um marco regulatório para o setor.
Garante ainda mais estabilidade, já que prevê,
entre outros, o pagamento de indenização
para empresas privadas que atuem na área de
saneamento, caso o Poder Público
resolva encampar os serviços prestados pela
companhia. Presume o ressarcimento, proporcional aos
investimentos, a ser pago em quatro anos ou mediante
acordo entre as partes. Ou seja, prevê a utilização
dos subsídios
cruzados e pode trazer mais transparência sobre
quem está investindo
e pagando pelo serviço.
Descentralização
Diante de expectativas tão promissoras, as áreas
de consultoria e projetos se preparam para ampliar
suas carteiras de negócios.
Para
Gilson Cassini Afonso, diretor-geral comercial da
Aquamec Equipamentos e presidente do Sindicato Nacional
das Indústrias
de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental
(Sindesam), os investimentos para 2008 devem ultrapassar
os R$ 4 bilhões
previstos pelo PAC para as áreas de habitação
e saneamento. “As mudanças reais devem
acontecer mediante o desembolso de verbas públicas
que reflitam garantias de investimentos. Afinal, ainda
dependemos muito mais das responsabilidades solidárias
de nossos governantes do que da alta capacidade de
investimento do setor privado”, relata. “As
companhias e as instituições financeiras,
embora tenham vontade e capacidade imensa de investir
no setor, ainda não possuem segurança
acerca dos investimentos, que são considerados
de longo prazo, muito embora tenhamos um Brasil muito
mais compromissado com a economia internacional, no
que diz respeito ao cumprimento de regras”, completa.
Na
opinião de Bruno Dinamarco, gerente de contratos
da B&F Dias, a descentralização talvez
seja um caminho capaz de alavancar investimentos no
setor, desde que os arranjos possíveis sejam
explorados de forma transparente, assim como a definição
das responsabilidades legais e a promoção
das informações. “Os interesses
dos setores privado e público são dependentes
entre si e devem ter um único denominador comum
capaz de zelar pelas atuais diretrizes. Nem o setor
público nem o privado chegarão ao cumprimento
da atual demanda sozinhos”, opina Dinamarco,
que prefere acreditar que o PAC, ao prever instrumentos
como extensão do prazo de financiamento e aumento
da carência em financiamentos contraídos
para a intensificação de formação
de parcerias entre o setor público e privado,
possa ajudar a reverter a situação do
saneamento ou a falta dele para mais de 70 milhões
de brasileiros.
Para
Renato Marne, gerente da Tecitec, se considerada
a preocupação mundial
com os problemas ambientais e o interesse pelo desenvolvimento
auto-sustentável,
o mercado tem imenso potencial de crescimento e nem
as limitações econômicas podem
ser consideradas preocupações. As barreiras
ao desenvolvimento, a seu ver, estão na resistência
em investir em sistemas que, subjetivamente, não
proporcionem retorno ao investidor. “O caminho
para que ocorra o crescimento expressivo nesse segmento
se dará por meio de incentivos que deverão
ser criados pelos governos municipal, estadual e federal
para as pequenas e médias empresas, que representam,
aproximadamente, 90% do pólo industrial brasileiro.”
Estrutura multidisciplinar
Em paralelo com as otimistas expectativas que rondam
o setor de saneamento e envolvem as empresas que
realizam projetos e consultoria estão exigentes
demandas acerca de detalhes que resultem em eficientes
projetos de saneamento, consultoria e gerenciamento.
Afinal, segundo Dinamarco, da B&F Dias, a má implantação
de um projeto pode inviabilizar a eficácia
da gestão. “Detalhes da legislação
vigente, características relacionadas ao processo
industrial, ou mesmo do modelo de tratamento adotado,
são determinantes e não devem ser ignoradas”,
diz o gerente da B&F Dias, que oferece ao mercado
sistemas de aeração por ar difuso fixo
ou removível para sistemas de tratamento de
efluentes e processos industriais. Com uma grande
variedade de sistemas fixos e removíveis,
a empresa já realizou mais de mil instalações
e forneceu milhares de difusores. Em 2006 a B&F
executou 134 novos projetos de sistemas, cujos preços
variam de R$ 5 mil a R$ 4 milhões.
Dinamarco
revela que, apesar de aquecido, o mercado não
deve suas boas expectativas apenas ao PAC e à nova
Lei de Saneamento. “Estamos,
neste momento, gerenciando e implantando 27 projetos,
sendo a maioria deles para empresas privadas. A expectativa é de
que apenas no final do ano o número de projetos
públicos cresça acentuadamente em razão
das novas diretrizes.”
Na
opinião de Cassini
Afonso, da Aquamec, as empresas fornecedoras de serviços
de projetos e de engenharia consultiva precisam preparar
uma proposta que ajude a evitar um colapso no mercado
em função
do PAC. “Faltam projetos e precisamos estabelecer,
juntamente com os ministérios das Cidades e
do Planejamento, um cronograma viável para o
início dos empreendimentos”, relata, ao
mencionar o envio para ao governo de um estudo elaborado
pelo Sinaenco que propõe soluções
capazes de garantir um estoque de projetos que possam
atender à demanda oferecida pelo PAC.
Parcerias
sólidas
A proposta não deixará de priorizar,
claro, a qualidade da implantação de
um projeto, já que até a gestão
baseada em procedimentos definidos por meio dos melhores
manuais de qualidade pode apresentar resultados aquém
dos esperados. São os casos de soluções
incompletas ou inadequadas ao empreendimento ambiental,
seja por problemas ocorridos durante a elaboração
da solução, na fase de editais de concorrência
e suas premissas, de capacitação técnica
durante a execução do empreendimento,
por parte da fornecedora, ou da fiscalização. “A
procura por uma solução ambiental demanda
o envolvimento de uma estrutura multidisciplinar baseada
na engenharia química, mecânica, eletroeletrônico
e civil”, explica o dirigente da Aquamec, que
fabrica materiais e equipamentos, seriados ou sob encomenda,
além de garantir sistemas em regime turn-key.
Oferece consultoria técnica, elaboração
de projetos completos e instalações completas.
Focada
na implementação de obras de tratamento
de água e efluentes, com garantias de execução,
performance e responsabilidade, a empresa preconiza
a execução de projetos baseados em normas
técnicas nacionais e internacionais, com a compatibilidade
e a conformidade necessária para a correta operação.
Detentora da tecnologia e participante da implantação,
a Aquamec realiza projetos pequenos, que contemplam
entre 2 e 3 mil habitantes, e que podem demorar meses
para serem concluídos, e grandes, capazes de
atender até um milhão de pessoas, que
podem demorar até anos para serem concluídos.
Fabricante
de equipamentos para estações
de tratamento de água (ETA) e estações
de tratamento de efluentes/esgotos (ETE), a Eimco,
segundo seu gerente de vendas, Luiz Ramos, ressalta
que a demora na concepção de um projeto
está atrelada à necessidade de consideração
de uma extensa gama de variáveis. “É preciso
considerar, além dos dados de processos e possíveis
expansões futuras, equipamentos que permitam
um aumento de capacidade com alterações
tecnicamente viáveis no próprio equipamento.
A escolha do equipamento adequado também é fundamental
para que em sistemas de gradeamento mecanizados, por
exemplo, os equipamentos utilizados não retirem
resíduos na parte frontal e devolvam o resíduo
ao sistema na parte traseira devido ao sentido do fluxo
de alimentação e deficiências no
sistema de limpeza das telas/grades.”
Para
Nilson Queiroz, diretor da Tecitec, há 24
anos no mercado de filtração industrial,
a elaboração de um projeto deve considerar
as características físico-químicas
das águas residuais, qual o grau de tratamento
em virtude das legislações vigentes, volume
ou quantidade gerada a ser tratada, o tipo de destinação
final, as expectativas e necessidades do cliente e, ainda,
a disponibilidade de recursos para a elaboração
e implantação do projeto. “É preciso
considerar todas essas variáveis, já que
a má aplicação de um projeto pode
não só inviabilizar a gestão como
promover o agravamento de um problema já existente”,
diz, ao explicar que a melhor maneira de evitar esse
tipo de ocorrência é estabelecer, com os
clientes, parcerias sólidas, que considerem a
realização de trabalhos em conjunto, capazes
de garantir a elaboração de projetos eficazes. |