Com
1.136 quilômetros de extensão, o rio
Tietê, que corta 56 municípios, sendo
34 deles na região metropolitana de São
Paulo, possui uma grande importância para a
história do País. Por ele, aventuraram-se
bandeirantes que fundaram povoados e cidades ao longo
de suas margens. No entanto, com o crescimento urbano,
o Tietê, que nasce em Salesópolis, na
Serra do Mar, a 840 metros de altitude e termina
no rio Paraná, em Itapura, divisa com o Mato
Grosso do Sul, mudou: marginais foram construídas
ao seu redor e muito esgoto e outros tipos de poluição
foram lançados, ocasionando sua degradação.
Os peixes, as práticas esportivas e o aproveitamento
das margens como áreas de lazer deram lugar
a um grande esgoto industrial e urbano.
Diante
desse cenário teve início, em 1992, um dos
maiores programas de saneamento básico do
Brasil, o Projeto Rio Tietê. A responsabilidade
da execução do programa de despoluição
ficou a cargo da Sabesp – Companhia de Saneamento
Básico do Estado de São Paulo, empresa
ligada à Secretaria de Recursos Hídricos
Saneamento e Obras.
Nesta
entrevista à revista
H20 Água, o presidente da Sabesp, Gesner Oliveira,
que é mestre em Economia pelo Instituto de
Economia da Universidade Estadual de Campinas e Phd
em Economia pela Universidade da Califórnia,
Berkeley (EUA), fala sobre os resultados alcançados
pelo Projeto Tietê e prevê novas conquistas
com sua prorrogação, que ainda não
tem objetivos e valores definidos. |
H2OÁgua:
O Projeto Tietê é o maior programa
de saneamento ambiental do País. Qual seu
principal objetivo?
Gesner Oliveira: O objetivo
do Projeto Tietê é coletar e tratar,
permanentemente, o esgoto gerado pelos quase 18
milhões de habitantes da região metropolitana
de São Paulo para reduzir o lançamento
de poluentes nos rios e córregos e melhorar
a qualidade da água do rio Tietê.
Além de gerar benefícios diretos
para a RMSP vai interferir diretamente na fauna
e flora no interior do Estado.
H2OÁgua:
Iniciado em 1992, o projeto, dividido em duas fases,
teve sua primeira etapa concluída em 1998.
Quais os resultados alcançados?
Oliveira: Foram inauguradas três Estações
de Tratamento de Esgoto (ETEs): São Miguel,
ABC e Parque Novo Mundo. Além disso, a Sabesp
ampliou a capacidade da ETE Barueri, de 7 metros
cúbicos por segundo para 9,5 metros cúbicos
por segundo. Foram construídos, também,
1,5 mil quilômetros de redes coletoras, 315
quilômetros de coletores-tronco e 37 quilômetros
de interceptores, além de terem sido realizadas
250 mil ligações domiciliares.
A
melhoria na qualidade de vida da população
dos municípios, que ficam às margens
do rio Tietê, é visível. Os
moradores de Salto e Itu, por exemplo, passaram
a ver peixes no trecho do rio que corta suas cidades.
Esses benefícios são constatados
pela ampliação do serviço
de coleta de esgotos para um milhão de moradores
da região metropolitana de São Paulo
e a redução significativa da carga
poluidora no trecho de 120 km na Bacia do Alto
Tietê.
Com
as obras da primeira etapa, os índices
de coleta de esgoto passaram de 63% para 80% e
os índices de tratamento aumentaram de 20%
para 62%, na região metropolitana de São
Paulo.
H2OÁgua:
Quantas pessoas, no total, serão beneficiadas
pelo Projeto Tietê com
serviços de coleta de esgotos? Qual será a
extensão das redes coletoras, dos interceptores,
dos coletores-tronco e das estações
de tratamento ao final do programa?
Oliveira: Na
primeira etapa foram inauguradas as estações
de tratamento de esgoto, que possuem os custos
mais elevados do projeto. Na etapa atual estão
sendo construídas tubulações
de esgotos, tão grandes e extensas que se
comparam a túneis viários e metrôs.
Essas tubulações vão possibilitar
a interligação do sistema de coleta às
estações.
Para
os esgotos chegarem às
estações de tratamento estão
sendo construídos 36 km de interceptores,
110 quilômetros de coletores-tronco, 1,2
mil quilômetros de redes coletoras e 290
mil ligações domiciliares.
Ao
final da segunda etapa, o Projeto Tietê terá gerado
75 mil novos empregos. Serão 290 mil ligações
que permitirão coletar e tratar o esgoto
de mais de 1 milhão de pessoas da região
metropolitana de São Paulo. Com isso, a
carga de poluição do rio Tietê trará,
como conseqüência, a redução
da mancha crítica de poluição
em mais de 40 km, a melhora da qualidade do abastecimento
de água, a queda da taxa de mortalidade
infantil e a melhoria geral da qualidade de vida
da população.
Com
as obras da segunda etapa, os índices de coleta de esgoto passarão
de 80% para 84% e os de tratamento aumentarão
de 62% para 70%, na região metropolitana
de São Paulo.
H2OÁgua:
Qual o montante investido em todo o projeto e qual
a sua procedência?
Oliveira: Na primeira etapa,
o investimento foi de US$ 1,1, sendo US$ 450 milhões
provenientes do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID), US$ 550 milhões de recursos próprios
da Sabesp e mais US$ 100 milhões da Caixa
Econômica Federal.
Na
segunda, o investimento é de
US$ 400 milhões, sendo US$ 200 milhões
financiados pelo BID e US$ 200 milhões oriundos
de recursos próprios da Sabesp.
H2OÁgua:
O Projeto está previsto para ser concluído
em 2008, mas estima-se que, ao final do programa,
perto de 1 milhão de pessoas serão
beneficiadas, contingente considerado pequeno perante
uma população de 18 milhões
de pessoas. O que ainda precisa ser feito?
Oliveira: Para que haja uma diminuição
na poluição
do rio Tietê serão necessários
investimentos contínuos e ininterruptos
na expansão dos serviços de coleta
e tratamento de esgotos, sempre com o objetivo
de complementar o sistema de esgotamento sanitário
e, ainda, acompanhar o crescimento populacional
na região metropolitana de São Paulo.
E o Projeto Tietê prevê investimentos
contínuos e ininterruptos para acompanhar
o crescimento populacional da região metropolitana
de São Paulo para poder melhorar as condições
ambientais e sanitárias da região.
A
Sabesp tem o compromisso de ampliar, na segunda etapa,
a fiscalização
para mais 290 indústrias. Com a medida, espera-se
a redução
do volume de poluentes industriais despejados no
rio. Na primeira etapa, mais de 1,2 mil indústrias
foram fiscalizadas pela agência ambiental
do Estado de São Paulo.
H2OÁgua:
Quais trechos do rio apresentam, de fato, recuperação?
Quais os índices constatados?
Oliveira: O rio Tietê ainda não
parece limpo na capital paulista, mas em algumas cidades
do interior do Estado a poluição já diminuiu
visivelmente. Nas águas malcheirosas e escuras
que passavam pela cidade de Porto Feliz, por exemplo,
já começaram a aparecer peixes.
Desde
que foi iniciado, em 1992, o Projeto Tietê já fez
com que a carga poluidora do Rio reduzisse sensivelmente
no trecho de 120 quilômetros. Na segunda
etapa, que está em andamento, o objetivo é que
a situação se repita em mais 40 quilômetros.
H2OÁgua:
A exigência de que o proprietário
de imóvel, que não possui ligação
de esgoto em seu domicílio à rede
coletora da Sabesp, deve ser multado não é cumprida.
Por quê?
Oliveira: A Lei de número
13.369, de 3 de junho de 2002, regulamentada pelo
Decreto de número 42.565, de 31 de outubro
de 2002, de autoria do vereador Marcos Zerbini
(PSDB) torna obrigatória, para todas as
edificações existentes, a ligação
da canalização de esgoto à rede
coletora pública. A prefeitura poderá autuar
todos os proprietários que não fizerem
as ligações de esgoto após
um ano de a rede coletora estar disponível.
A
lei não se aplica aos imóveis em
que for constatada a impossibilidade técnica
de execução da ligação à rede
coletora, a partir da vistoria feita pela subprefeitura
ou pela Sabesp. Mas, independentemente da lei, é importante
que as pessoas tenham consciência que, quando
há condições técnicas,
a ligação de suas residências à rede
da Sabesp é a maneira mais adequada para
dispor o esgoto.
H2OÁgua:
Por que a demora para a conclusão do programa?
Acredita que o Tietê vai ser totalmente recuperado?
Ele será prorrogado?
Oliveira: A Sabesp tem
buscado a despoluição dos rios Tietê e
Pinheiros desde a sua criação, em
1973, por meio do assentamento contínuo
de redes coletoras de esgotos, emissários,
interceptores e estações de tratamento
de esgotos. Porém, em 1998, houve um empreendimento
maior e exclusivo para o assunto, intitulado Projeto
Tietê. De lá para cá o projeto
teve sucessivos investimentos e, em 2008, seguirá para
a terceira etapa.
Em
2008 o rio Tietê, no
interior paulista, terá uma sensível
melhora, ou seja, haverá uma redução
da mancha poluidora em 160 km, sendo que, atualmente,
algumas cidades já voltaram a viver da pesca.
No trecho que corta a capital, o aspecto do rio
ainda não será satisfatório,
pois o lixo, responsável por 35% da poluição,
ainda é despejado continuamente.
H2OÁgua:
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental
(Cetesb) divulgou, recentemente, um relatório
que mostra um retrocesso nos níveis de oxigênio
das águas do Tietê e a alta concentração
de substâncias tóxicas. O estudo revela
que, em 2006, detergentes fizeram aumentar a concentração
de substâncias tóxicas, como fósforo
e amônia, nas águas e que o nível
de oxigênio voltou aos patamares críticos
da década de 90. Durante boa parte do ano,
permaneceu em 0 miligrama por litro no trecho que
corta a capital. Em 2005, a Cetesb registrara no
trecho paulistano 0,5 miligrama de oxigênio
por litro, número 16 vezes menor que o necessário
para que o rio voltasse a ter peixes. O que acontece?
Oliveira: Aconselhamos comparar dados com a SOS Mata Atlântica,
que faz monitoramento contínuo
da qualidade do rio em diversos trechos, inclusive
são mostrados em seu site. |