A
indústria sucroalcooleira é uma das
principais esferas a colaborar com o dinamismo da
economia brasileira nos últimos anos. Movimentou
perto de R$ 50 bilhões na safra de 2006/2007,
1,5% do PIB nacional, e produziu cerca de 30 milhões
de toneladas de açúcar e 17,5 milhões
de litros de álcool, que garantiram exportações
de 19 milhões de toneladas e 3,5 bilhões
de litros, respectivamente.
As
oportunidades criadas por esse cenário de
desenvolvimento setorial são garantidas a
todos os atores ligados aos processos utilizados
pelas 325 usinas e destilarias existentes no País,
que recolhem, aproximadamente, R$ 12 bilhões
em impostos e taxas e empregam 3,6 milhões
de pessoas. Personagens como os utilizados nos tratamentos
de água e efluentes,
que até pouco tempo atrás tinham pouca
participação nesse enredo do mercado,
já conquistam mais espaço na história
da indústria sucroalcooleira. Afinal, garantir
um papel de maior importância para quem fica
nos bastidores é reforçar os alicerces
capazes de garantir a perfeita sintonia de um espetáculo
que prevê aportes de US$ 14,6 bilhões,
traduzidos em uma usina por mês ao longo dos
próximos seis anos.
“A
indústria
sucroalcooleira, que nunca teve tradição
na realização de tratamentos de água
e efluentes, está começando a se comprometer
com modernas práticas de desinfecção
da água, pois já percebeu a ineficiência
de limitar sua preocupação à adição
de produtos químicos para floculação
e correção de pH”, retrata Jose
Norberto de Souza, gerente de negócios da
Arch Química, que desde 2005 incrementa seu
leque de soluções oferecidas às
usinas.
Souza
explica que a atenção
dispensada ao tratamento de água envolve inovações
tecnológicas e de processos. “Da matéria-prima
ao produto final, passando por práticas administrativas
e mercadológicas, o setor sucroalcooleiro
tem se mostrado uma ponta-de-lança em novas
tecnologias aplicadas ao seu negócio”,
diz. Ele acredita, porém, que as decisões
são tomadas pelas usinas com base em suas
necessidades de promover rendimentos nas operações
industriais, conduzindo a economias de energia e água.
Plantio,
colheita, lavagem, moagem e produção,
todas as etapas de produção, segundo
Souza, estão sendo integradas. “O segmento
tem se empenhado em eliminar as ilhas de operação
existentes graças à compreensão
do axioma custo versus benefício”, conta
o gerente de negócios da Arch Química,
que oferece ao mercado o HDS Hypocal, sistema automático
de desinfecção que, ao ser empregado
para a eliminação de resíduos
em efluentes, melhora a qualidade da água
descartada e torna possível seu reúso
em sistemas não críticos, resultando
em economia de consumo de água. Ele revela
que as decisões também consideram as
limitações para a captação
direta nos rios e a cobrança de taxas. Assim,
as usinas otimizam seus processos a fim de reduzir
o consumo e a perda de água por meio da adoção
de mais ciclos em sistemas de resfriamento, que resultam
em aumento do ciclo de concentração
e redução no volume de água
descartado.
Em
prol da energia
As novas ofertas providas ao setor
sucroalcooleiro, segundo o engenheiro químico
Heitor José Zuntini, gerente de produtos para
o Cone Sul da Nalco Brasil, refletem sua clara evolução
e demanda por soluções cada vez mais
eficientes. “O efluente gerado nas usinas tem
aplicações na lavoura, mas a água
utilizada em sistemas de resfriamento e caldeiras,
por exemplo, requer técnicas mais modernas
de tratamento. O setor tem se mostrado disposto a
investir, pois está ciente que a economia
de água e energia deixou o status de opção
para ocupar a posição de condição,
já que garante eficiência na operação
de uma usina.” Ele diz ainda que o direcionamento
de recursos está fundamentado, sobretudo,
na tendência de co-geração, que
permite às usinas utilizarem a água
gerada em suas unidades e acumular ganhos energéticos. “O
ganho energético é traduzido em economia
de bagaço que, nas plantas de co-geração,
significa extensão do período de geração
de vapor, ou seja, de maior geração
de MW, e cada MW produzido representa uma fonte de
receita para a usina. Afinal, uma unidade dispõe
agora de três produtos finais: açúcar, álcool
e energia elétrica”, destaca o executivo.
Zuntini
explica que os benefícios proporcionados
pela tecnologia têm incitado as indústrias
a construir suas novas unidades sob conceitos tecnológicos
apesar do maior investimento inicial. “Ao abandonarem
os tradicionais sistemas abertos de água,
nos quais a água era captada, utilizada uma única
vez e descartada, as usinas auferiram ganhos ambientais
para seus negócios. Ao demandarem menor volume
de água elas preservam os mananciais e computam
vantagens do ponto de vista do tratamento de água”,
avalia. Segundo ele, tais mudanças minimizaram
os antigos problemas de corrosão, incrustação
e descontrole microbiológico e já garantem
maior tempo de vida útil aos equipamentos,
além de reduzirem os problemas de perda de
eficiência decorrentes da realização
de trabalhos em descompasso com as condições
ideais.
A
Nalco é provedora de aplicações
para tratamento de águas, do ar e para melhoria
de processos, e oferece serviços, produtos
e equipamentos para mais de 70 mil clientes nos mais
diversos segmentos industriais e institucionais.
Entre as soluções ofertadas Zuntini
destaca o 3DTRASAR para açúcar, equipamento
que visa o máximo aproveitamento do condensado
vegetal como água de alimentação
de caldeiras. A tecnologia utiliza a fluorescência
para detectar a presença de caldo no condensado
vegetal, que passa continuamente pelo equipamento
enquanto recebe luz de comprimento de onda específico.
Ao detectar contaminação com caldo,
o equipamento emite fluorescência, captada
e medida pelo 3DTRASAR.
O
equipamento trabalha on-line e, por isso, o condensado é monitorado
ininterruptamente, sem interferência de componentes
inorgânicos,
o que é comum mediante a utilização
de condutivímetros, empregados para a mesma
função. “Os benefícios
da tecnologia estão relacionados ao aproveitamento
energético, pois o condensado é utilizado
completamente, sem risco ao sistema de geração
de vapor. Também, ao impedir a contaminação
da caldeira, evita-se purgas excessivas, e se tudo
isso se traduz em otimização energética,
os benefícios se expandem para economia de
bagaço”, esclarece o engenheiro.
Soluções
para todas as necessidades
Joubert
Trovati, engenheiro de aplicações da
GE Water & Process
Technologies também partilha da opinião
de que o setor sucroalcooleiro, grande usuário
de água, tanto na forma líquida como
na de vapor, já compreendeu que tanto a qualidade
final de sua produção quanto a eficiência
de seu processo estão atreladas ao tratamento
de água adotado. “Em razão da
abundante demanda de água, as usinas precisam
buscar o rendimento das operações industriais
de produção de açúcar
e álcool no projeto inicial da unidade, operações,
controles de processos, manutenções
e, ainda, por meio da colaboração dos
funcionários”, analisa.
Segundo
ele, a água que abastece uma usina deve primeiramente
ter suas impurezas removidas por meio de uma estação
de tratamento de água. Para gerar vapor, a água
que alimenta as caldeiras deve ser previamente desmineralizada
e adequadamente tratada por meio de insumos para
garantir a ausência de incrustações,
corrosão e arrastes. Nos sistemas de resfriamento,
a água deve ser submetida a tratamentos com
produtos químicos, também capazes de
evitar a formação de incrustações,
processos corrosivos e crescimento microbiológico
indesejável.
Para
atender a todas essas necessidades, o engenheiro
de aplicações da GE Water & Process
Technologies relaciona a ampla gama de produtos e
equipamentos ofertada pela empresa. Entre elas, antiincrustantes,
biocidas, antiespumantes, polímeros, estações
de tratamento de água por membranas de ultrafiltração,
sistemas de desmineralização de água
por osmose reversa e troca iônica, eletrodiálise
e eletrodeionização, inclusive para
produção de água ultrapura para
caldeiras de alta pressão. Opções
voltadas para automação e instrumentação
industrial são oferecidas pela GE Supply,
pela GE Fanuc e, mais recentemente, pela GE Sensing.
Juntas, fornecem controladores lógico-programáveis
(CLPs), cartões e interfaces de comunicação,
sensores e transmissores de vazão, temperatura,
pressão, nível, entre outros. Na área
de geração e distribuição
de energia elétrica está a GE Energy,
com suas soluções em turbinas a vapor,
geradores, painéis e comandos elétricos,
motores, entre vários outros produtos. O portfólio
completo revela a incorporação das
capacidades herdadas da BetzDearborn, Osmonics, Glegg,
Ionics, Ecolochem e agora Zenon.
Profissionalização
eleva qualidade de produção
Também
provedora de soluções para o tratamento
de água e efluentes na indústria sucroalcooleira,
a Veolia Water Solutions & Technologies, braço
do grupo Veolia Environment, dispõe de um
portfólio de serviços que foca soluções
para gestão de água, resíduos,
energia e transporte.
De
acordo com o engenheiro César Quintino, gestor de negócios
sênior da Veolia Water Solutions & Technologies,
a empresa atua em toda a cadeia de valor da gestão
das águas, já que realiza projetos,
implanta e opera sistemas de tratamento de água
desmineralizada bem como de osmose reversa, efluentes
e reúso. Dispõe também de sistemas
térmicos de utilidades e fluidos industriais
e sistemas como o Built Operate Transfer (BOT) e
o Built Operate Own (BOO). O primeiro é uma
modalidade de contrato na qual as empresas investem
em um equipamento ou sistema de tratamento, fazem
a operação, manutenção
e transferem ativos após um período
contratual; o segundo mantém o ativo como
posse da Veolia.
“A profissionalização
está elevando os padrões de produção
industrial, incentivando as unidades produtoras de
açúcar e álcool a reformularem
suas estruturas por meio da aquisição
de soluções oferecidas por empresas
certificadas”, opina Quintino. Ele explica
ainda que diversas usinas brasileiras buscam hoje
soluções garantidas por sistemas de
co-geração de energia pelo bagaço
da cana, que demandam caldeiras de alta pressão
para alimentar suas turbinas. E essas clamam por
unidades de osmose reversa para garantir a produção
da água desmineralizada a ser usada para gerar
o vapor que vai alimentar as caldeiras. |