É com
otimismo que a indústria nacional de materiais
compósitos (resinas termofixas associadas
a materiais de reforço) faz as contas para
encerrar o ano. O responsável por puxar para
cima os resultados do setor, que registra crescimento
médio anual de 5%, é o plástico
reforçado com fibra de vidro (PRFV), já que
no Brasil os outros itens que compõem o nicho – compósitos
de alta performance, como fibra de carbono, aramida
e resinas epóxi – são usados
em menor escala, pois contemplam aplicações
mais específicas na indústria espacial,
militar e aeronáutico, por exemplo, nas quais
a exigência de performance, baseada na relação
peso e resistência, é maior.
Versátil,
o PRFV contabiliza mais de 40 mil aplicações
no mundo. Cadeiras, mesas, piscinas, tubos, caixas
d' água, barcos, aviões, placas, obras
de arte, torres de igrejas, entre outras apresentações,
permitem que o produto garanta boas soluções
ao substituir materiais como ferro, aço, alumínio
e madeira. Resistente à corrosão, o
PRFV oferece flexibilidade na obtenção
das mais diferentes formas de desenho, quando comparado
aos métodos produtivos tradicionais e possibilita
alternativas resistentes, com baixo peso, e é de
baixo custo. “Os compósitos podem compor,
praticamente, qualquer produto e quase sempre apresentam
vantagens na relação custo-benefício
estabelecida perante seus concorrentes”, relata
Henrique Ferraz, presidente da Associação
Brasileira de Materiais Compósitos (Abmaco),
entidade fundada em 1981 que possui cerca de 100
empresas associadas responsáveis pela produção
e distribuição de matérias-primas
e produtos auxiliares. A Abmaco registrou em 2006
um consumo de 120 mil toneladas de materiais compósitos
no Brasil. Desse total, 32% foi destinado à produção
de telhas, tubulações, perfis e reservatórios
de água, entre outros itens voltados ao abastecimento
da construção civil.
Potencial
de crescimento
O volume
consumido movimentou R$ 1,6 bilhão
e foi responsável pela geração
de 100 mil empregos diretos e 260 mil indiretos.
Em 2007, Ferraz acredita que o crescimento de 5%
se repita, com a participação da construção
civil no setor chegando a 36%. Para o futuro as expectativas
são ainda mais promissoras. Ferraz estima
crescimento de 7%, em média, para o período
de 2008 a 2012. “O consumo per capita de compósitos é muito
pequeno no Brasil, se comparado a outros países
e, por isso, vislumbramos excelentes oportunidades
de mercado para o setor”, comenta. Ele calcula
que o consumo brasileiro represente 10% do dispêndio
americano e 15% do europeu e do asiático,
onde o desenvolvimento teve início no final
da 2ª Guerra Mundial. No Brasil, o setor começou
a se desenvolver a partir da década de 70,
perante a influência do capital estrangeiro
e da chegada das multinacionais.
Otimista,
Ferraz relata que as apostas positivas para os próximos
anos levam em conta a continuidade da estabilidade
econômica e cambial. Também estão
enlaçadas pela nova Lei do Saneamento Básico
e pelos aportes condicionados ao Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), que reserva boas perspectivas
para o saneamento brasileiro – afinal, o Ministério
das Cidades prevê para o setor investimentos
de mais de R$ 40 bilhões entre 2007 e 2010.
O montante, segundo expectativas do governo, deve
contemplar mais de 24,5 milhões de brasileiros
com água encanada, 25,4 milhões com
coleta e tratamento de esgotos e 31,1 milhões
com coleta e destinação adequada de
resíduos sólidos.
Negócios
avantajados
Tantos
subsídios garantem à indústria
de compósitos um sólido alicerce, que
estimula a realização de negócios
bem estruturados. Em julho, o setor celebrou, pelas
mãos da Amitech, braço local do grupo
saudita Amiantit, o maior contrato de fornecimento
de PRFV da história do Brasil. Ao longo dos
próximos 12 meses, a empresa fornecerá 19km
de tubos para a quinta etapa de construção
do Canal da Integração, maior obra
de distribuição de água para
consumo e irrigação já realizada
no Ceará. O Canal da Integração
terá 255km e reforçará o abastecimento
da região metropolitana de Fortaleza e Pecém,
integrando a bacia hidrográfica do Rio Jaguaribe.
Estabelecido
em razão de uma concorrência
pública internacional, proposta pela Secretaria
de Recursos Hídricos (SRH) do Estado do Ceará,
o acordo possibilitou uma economia de R$ 12 milhões
aos cofres da companhia, verba suficiente para subsidiar
a compra de mais 9km de tubos de PRFV.
Ainda
sob o contexto do desenvolvimento estão as
expectativas depositadas em nichos promissores, como
o sucrooalcooleiro, que deve receber aportes de US$
14,6 bilhões,
traduzidos em uma usina por mês ao longo dos
próximos seis anos. Enquanto os investimentos
não vêm para alavancar crescimentos
em cadeia, a safra recorde de cana-de-açúcar
de 2007, que ultrapassou 500 mil toneladas, demandou
um incremento de 15% na produção de
tubulações, tanques, alcooldutos, gradis
e revestimentos que consideraram o uso dos compósitos
como melhor opção em razão de
sua elevada resistência química e leveza
e conseqüente capacidade de reduzir os custos
de instalação. O mesmo impulso ocorre
em atividades caracterizadas por altíssimo
nível de corrosão, como o transporte
da vinhaça, subproduto da destilação
do álcool.
Apostas
também estão
direcionadas à indústria petroquímica,
que adota o PRFV em plataformas de petróleo
em razão da baixa necessidade de manutenção
do produto no decorrer de sua vida útil; ao
setor de saneamento básico, que contempla
tubulações de transporte de água,
estações de tratamento de esgoto e
reservatórios; à indústria de
celulose, que ganha maior eficiência em função
do menor número de paradas de manutenção;
e à de energia elétrica, contemplada
com pás eólicas que, segundo Ferraz,
atualmente iluminam as exportações
do mercado.
Apesar
de todo o otimismo do setor, o PRFV ainda enfrenta
obstáculos no caminho
rumo ao desenvolvimento. Entre eles a alta tributação
dos produtos acabados. Enquanto o plástico
paga 15% de IPI, o concorrente aço possui
uma carga tributária que varia de 0% a 5%.
Também limita o crescimento do setor a falta
de aprimoramento técnico de operários
de chão de fábrica, supervisores e
líderes. Por isso, a Abmaco implantou em 2002
o Centro Tecnológico de Compósitos
(Cetecom), em parceria com o Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo
(IPT). O centro oferece cursos de curta ou média
duração para a capacitação
da mão-de-obra operacional e técnica.
A idéia é suprir as necessidades e
carências na área da qualidade de produtos. |