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Brasil, 5 de Fevereiro de 2012
 
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Produtividade em gotas
 

Sistemas de irrigação rendem maior produtividade à cana-de-açúcar e podem colocar o Brasil à frente na corrida energética.

 

A produção superior a 2 milhões de toneladas na safra de 2007 da usina São José da Estiva, situada em Novo Horizonte (SP), é baseada em duas áreas de plantio bem diferentes. Uma delas, de aproximadamente 15 mil hectares, é fertirrigada com uma dosagem padrão de 150 m³ de vinhaça por hectare. O restante, por volta de 10 mil hectares, não recebe o mesmo benefício. O resultado: na área irrigada, é perceptível a maior longevidade e a melhor brotação e vigor da planta. "Com o manejo da técnica da fertirrigação é possível obter boa produtividade em solos de baixa fertilidade", diz Júlio Vieira de Araújo, gerente técnico da usina, que utiliza o sistema de aspersão por meio de carretel enrolador.

A São José de Estiva é uma exceção no estado de São Paulo, cujo regime hídrico é satisfatório e não exige maiores investimentos. Apesar de seus benefícios, a prática de irrigação da cultura de cana-de-açúcar ainda não é comum no Brasil. São mais de 5,2 milhões de hectares de cana irrigados ao redor do mundo, ou cerca de 30% da área plantada. No Brasil, não são irrigados mais de 70 mil hectares. O produto é cultivado há séculos sob condições naturais. Dependentes da natureza, agricultores e usineiros atribuem ao clima o sucesso ou o fracasso das safras. Ao mesmo tempo, deixam de se beneficiar dos ganhos de produtividade que o processo de irrigação pode proporcionar.

De acordo com Jorge Luis Donzelli, coordenador de pesquisa tecnológica do Centro de Tecnologia Canavieira, associação sem fins lucrativos voltada ao desenvolvimento tecnológico dos setores de cana-de-açúcar, açúcar, álcool e bioenergia, existem ganhos de produtividade quando é usada irrigação complementar, conforme confirmado na usina de Novo Horizonte - inclusive no estado de São Paulo, onde as chuvas suprem quase toda a demanda hídrica da cultura da cana. Flávio Aguiar, gerente nacional de cana-de-açúcar da Netafim Brasil, empresa israelense que executa projetos de irrigação, garante que o aumento na produtividade em razão do uso de fertirrigação por gotejamento subterrâneo pode chegar a 50%.

Mesmo assim, o processo ainda não é adotado em larga escala no país. O principal desafio é a relação entre os investimentos necessários e os preços aplicados à tonelada da cana, que na safra de 2007 deve fechar em torno de R$ 36 a tonelada. É um ciclo vicioso, porque ao mesmo tempo a falta de hábito se torna responsável pelos elevados custos dos projetos na área. Outro vilão tradicional no que diz respeito aos preços é o óleo diesel, consumido em grande quantidade em um sistema de irrigação. A barreira energética, entretanto, tende a se reduzir, já que nos próximos anos deve crescer a utilização de energia cogerada por meio de motores elétricos.

Diversificação tecnológica
Atualmente, existem no Brasil quatro tipos de irrigação em cana-de-acúcar. A chamada irrigação de salvação contempla o fornecimento de 20 a 90 mm de água por ano, além das chuvas. É mais utilizada em meio de safra, no Centro-Sul do país. A irrigação suplementar ou complementar fornece entre 90 e 150 mm anuais, enquanto a plena, considerada a irrigação propriamente dita, se propõe a repor todas as deficiências hídricas da cana durante seu ciclo completo.

As individualidades de cada usina determinam a melhor opção de irrigação e o sistema a ser utilizado. O projeto deve considerar fatores como relevo, formato da área, obstáculos (árvores, redes elétricas, construções, estradas), disponibilidade de água e energia elétrica, uso de efluentes, fertilidade dos solos, micro-clima da região (incluindo regime de chuvas e evapotranspiração nos meses de seca) e a variedade da cana a ser irrigada, entre outros. Também devem ser considerados, na hora da decisão, o tamanho do projeto, bem como o custo e o retorno de cada sistema.

As técnicas empregadas no processo de irrigação das usinas brasileiras concentram-se basicamente em aspersão, na qual canhões, carretel enrolador de mangueira e pivô central garantem a distribuição racional de águas residuárias de processos e vinhaça, subproduto da cana que contém boa concentração de nutrientes.

Uma opção que tende a se difundir é a de irrigação por gotejamento. A técnica foi desenvolvida pela israelense Netafim em 1964 para aumentar a produtividade agrícola e otimizar a aplicação da água nas culturas em Israel. Em 1978 começou a ser aplicada na cana-de-açúcar no Havaí. Hoje são mais de 320 mil hectares irrigados por gotejamento no mundo. No Brasil, a Netafim, cuja fábrica nacional está localizada em Ribeirão Preto (SP), é responsável pela irrigação de mais de 5 mil hectares de cana.

De acordo com o gerente de Marketing Marcelo Baratella, as técnicas de fertirrigação por gotejamento subterrâneo, que distribui além da água fertilizantes e defensivos agrícolas, podem usar água captada da chuva, utilizada de maneira econômica para produzir a energia empregada na pressurização dos motores que compõem o sistema de irrigação. "Quanto menor a potência exigida, menores os gastos de água para a geração de energia", explica. Segundo ele, sistemas de aspersão e pivô central utilizam de 30% a 60% a mais de potência. A distribuição de água, fertilizantes e produtos agroquímicos se dá por meio de tubulações de polietileno, com gotejadores instalados com 20 cm de profundidade no momento do plantio junto ao sistema radicular da planta. Permanecem enterrados no solo por mais de 10 anos, dependendo da longevidade do canavial. De acordo com Flávio Aguiar, a produtividade do cultivo extensivo de cerca de 70 toneladas por hectare, com cinco ou seis cortes, salta para até 150 toneladas por hectare, com oito ou dez cortes. "O sistema permite o plantio em qualquer época e a reforma no mesmo ano da safra", garante. "A extração pode chegar a 12 mil litros por hectare, contra os 6,8 mil litros atuais."

O futuro do etanol
Ganhos de produtividade podem colocar o Brasil na posição de maior fornecedor mundial de etanol, com alta competitividade. A expectativa de crescimento na demanda mundial pelo produto, que deverá surgir nos próximos anos, promete agitar o setor de cana-de-açúcar. O panorama é positivo, mas traz desafios para os produtores - o principal é aumentar a produtividade das lavouras com qualidade para atender as exigências internacionais.

"A maioria dos países que irrigam a cana aumentou a eficiência e a competitividade", diz Aguiar, da Netafim. Enquanto o Brasil garante a produção de 85 toneladas por hectare na região Centro-Sul, em cinco ou sete cortes, e cerca de 50 toneladas por hectare em quatro ou cinco cortes no Norte-Nordeste, a realidade externa é aproximadamente de 120 toneladas por hectare, em 13 cortes. Embora o país não tenha região de plantio de cana considerada totalmente seca, suas diferentes regiões têm problemas na distribuição de chuvas durante o ano. A incorporação de novas áreas no Centro-Sul e a exploração de áreas com déficits hídricos mais acentuados amplia a necessidade de irrigação, capaz de equilibrar a distribuição pluviométrica e promover ganhos de produtividade pela garantia da umidade adequada durante todo o crescimento.

A conta dos investimentos
Os custos para a implantação de um sistema de irrigação variam em função do projeto, levando em conta técnica, sistema e região a ser irrigada. Mas ficam em média entre R$ 2 mil e R$ 6 mil por hectare, com custo operacional anual entre R$ 3 e R$ 10 o milímetro de água aplicado. A amortização do investimento, no caso da cana-de-açúcar, ocorre em média depois de quatro colheitas para produtores, e de duas safras para usinas e destilarias.

"Dependendo do clima, as necessidades hídricas da cana-de-açúcar são de 1.500 a 2.500 mm , uniformemente distribuídos durante o ciclo, mas a crescente demanda pela incorporação de novas áreas de cana no Centro-Sul do Brasil tem levado à exploração de regiões com déficits hídricos mais acentuados. Nestes casos, a irrigação pode ser fundamental e economicamente viável, principalmente por meio do uso de métodos mais eficientes", relata ao expor que se o País quiser realmente se tornar o Celeiro Energético do Planeta, precisa elevar a extração de 88 litros de Ethanol por tonelada de cana - em uma situação onde o consumo é de 82 toneladas de cana por Ha - para 13 mil litros, perante uma produção de 140 toneladas de cana por Ha. "Os custos de produção por litro de Ethanol poderiam cair em até 30%", calcula.

 
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