Com prazo de execução de obras reduzido, menor custo de operação e manutenção, o uso das águas subterrâneas demanda investimentos menores do que os consumidos para o consumo das águas superficiais, que exigem barragens, adutoras, recalque e, na maioria das vezes, estações de tratamento. Por isso, o líquido presente no subsolo viabiliza boa parte do abastecimento público de água em pequenas vilas e povoados, bem como o abastecimento industrial, com a vantagem extra de quase sempre sair dos poços sem necessidade de tratamento especial além da cloração, acrescida da facilidade de operação com o uso de mão-de-obra sem altos níveis de especialização.
Para dar um exemplo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), ligada à Secretaria do Meio Ambiente do governo de São Paulo, realizou em 1997 um relatório que apontou que 72% dos 645 municípios paulistas são total ou parcialmente atendidos por água subterrânea. A água subterrânea captada no Brasil provém da perfuração anual de cerca de 9 mil poços e de acordo com os dados mais recentes do IBGE, 61% da população é abastecida pelo manancial subterrâneo.
As estimativas da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), entidade que visa fomentar a utilização de aqüíferos de forma racional por meio do desenvolvimento de técnicas, tecnologias, gestão integrada e observação de normas técnicas e licenças ambientais, apontam que a captação no subsolo ainda é modesta no País perante os 12 milhões de poços perfurados nos últimos 25 anos em todo o mundo. Na Europa, 75% do sistema provém de água subterrânea, enquanto no Brasil estima-se que 50% das cidades sejam abastecidas por esse modelo. Estados que possuem extensas coberturas sedimentares, como Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e sul de Goiás, têm debaixo da terra a alternativa mais viável de abastecimento de suas comunidades.
Preservação é a chave
É importante ressaltar que a água subterrânea pode ser a única alternativa para consumo no futuro. Estima-se que os oceanos e mares representem 97% de toda a água existente no mundo e que apenas 3% seja água doce. Dessa magra fatia, 2% formam inacessíveis geleiras. A parcela de 1% disponível para consumo está armazenada nos lençóis subterrâneos, rios e lagos.
Por isso, medidas que privilegiem a preservação são fundamentais. Na América do Sul, os quatro membros fundadores do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) adotaram um plano de uso sustentável do Aqüífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do mundo. Seu volume chega a 37 mil km³ e a extensão se aproxima de 1,2 milhão de km², a maior parte no território brasileiro. A recarga natural anual, principalmente em razão das chuvas, é de 160 km³ por ano; desse total, 40 km³ anuais têm potencial explorável, sem riscos para o sistema aqüífero. As águas geralmente são de boa qualidade para o abastecimento público e outros usos, sendo que, em sua porção confinada, os poços, que possuem cerca de 1,5 mil metros de profundidade, podem produzir vazões superiores a 700 m³/h. Batizado de Plano de Ação Estratégica do Projeto Aqüífero (PAE), o projeto, que deverá ser concluído até o fim de 2008, visa estabelecer medidas em prol do uso sustentável da água pelos países-membros. Serão abordadas questões relativas ao solo, mananciais e poços perfurados para o consumo de água.
Segundo o geólogo João Carlos Simanke de Souza, da Abas, os estudos sobre contaminação, qualidade, quantidade e fluxos hidrodinâmicos das águas subterrâneas devem identificar as áreas de recarga e diagnosticar problemas que afetem sua circulação, armazenamento e limites das bacias hidrogeológicas. Ele lembra que a reserva tem potencialidade excelente e explica que as águas subterrâneas têm como característica principal percolar através dos planos de fraqueza estrutural das rochas, como falhas, fraturas, fissuras e poros dos sedimentos. Portanto, a qualidade da água depende do meio filtrante atravessado e da quantidade do arranjo geométrico do aqüífero.
O também geólogo André Vagner Aragoni, diretor da Uniper Hidrogeologia e Perfurações, fornecedora de serviços de perfuração, operação, recuperação e manutenção de poços tubulares profundos, diz que devem ser considerados também aspectos geológicos relacionados às litologias (classificação das rochas) e suas propriedades físicas, como porosidade, permeabilidade e grau de fraturamento, bem como o contexto da geologia estrutural da região, a proximidade da região aos centros urbanos e se não há declaração de contaminação pela Cetesb. "Alguns municípios de São Paulo já possuem um mapa de vulnerabilidade de contaminação do aqüífero, desenvolvido pelo Instituto Geológico do Estado de São Paulo", explica Aragoni.
Qualidade e proteção
A população atual na área de ocorrência do Aqüífero Guarani está estimada em 29,9 milhões de habitantes, sendo que 3,7 milhões estão nas áreas de afloramento. A combinação da qualidade da água, quase sempre adequada para consumo humano, com a proteção oferecida contra os agentes de poluição, que afetam rapidamente as águas dos rios e outros mananciais de água de superfície, com a possibilidade de captação nos locais onde ocorrem as demandas faz do Aqüífero Guarani o manancial mais econômico, social e flexível para abastecimento do consumo humano da região.
De acordo com o geólogo Luiz Guidorzi, diretor superintendente e histórico da Itaí, que elabora e implanta projetos para captação de água subterrânea, as informações disponíveis sobre geologia, hidráulica, características hidrodinâmicas e composição química das águas subterrâneas são suficientes para garantir itens como qualidade da água, valor do poço, consumo de energia e vazão de exploração condizentes com o que foi estipulado em projeto. "Os poços perfurados no Aqüífero Guarani podem produzir vazões variáveis entre 50m³ e 500m³ por hora", diz. Guidorzi explica que existem poços em operação na região há mais de 30 anos. A perfuração de poços com 250 metros de profundidade na zona de afloramento do Aqüífero Guarani pode demorar até 21 dias. Onde ocorrem 300 metros de basalto e 250 metros de arenito, o prazo é de 45 dias, enquanto a obra com mil metros de basalto e 250 metros de arenito leva 120 dias.
Aragoni, da Uniper, ressalta também que os estudos são mais fiéis em regiões de abrangência de aqüífero sedimentar, com exploração racional, do que em áreas de rochas cristalinas, onde os condicionantes geológicos (fraturas e falhas) produtores de água só podem ser confirmados durante o trabalho de sondagem e perfuração. "O projeto de um poço pode garantir resultados insatisfatórios mesmo em área hidrogeologicamente favorável", adverte. Segundo ele, a vazão de exploração ideal pode ser mantida por um longo período - sem condições exploratórias predatórias, para que não ocorra interferência hidráulica entre os poços e conseqüente rebaixamento do nível da água do aqüífero e da vazão explorada.
Métodos e normas de perfuração
Segundo Souza, da Abas, atualmente não há impedimento tecnológico para perfurar poços com até 2,5 mil metros de profundidade. "Temos tecnologia e equipamentos disponíveis no mercado para suprir essas demandas", garante. Os métodos de perfuração mais utilizados, atualmente, são o rotativo e o rotopneumático. O primeiro pode ser utilizado para perfuração em rochas sedimentares e cristalinas, porém seu rendimento é maior em rochas sedimentares inconsolidadas. Já o método rotopneumático também pode ser utilizado para perfuração em rochas sedimentares e cristalinas, porém as rochas sedimentares obrigatoriamente deverão ser consolidadas.
Os procedimentos construtivos referentes à instalação e cimentação do revestimento de proteção sanitária devem seguir as normas da ABNT (NBR 12212 E NBR 12244). Em São Paulo , a perfuração de poços precisa ser autorizada pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Além disso, em algumas cidades também são exigidos relatos de órgãos ambientais, como Cetesb e Departamento Estadual de Recursos Naturais (DPRN).
A contaminação dos aqüíferos ocorre quando os procedimentos técnicos de cimentação e revestimento de proteção sanitária não são seguidos - muitas das ocorrências de contaminação estão atreladas a perfurações clandestinas. "Os riscos de contaminação, quando as normas não são seguidas, podem resultar de infiltração de águas pluviais, resíduos químicos e patogênicos ou de plumas contaminantes provenientes de áreas industriais, aterros sanitários e postos de combustíveis", diz o diretor da Uniper. |