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Brasil, 7 de Setembro de 2010
 
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Indústria que dá no couro
 

Há mais de três décadas a indústria de curtume carrega o peso de ser considerada poluidora; mas a história tende a mudar. Pelo menos é nesse sentido que os fornecedores têm empreendido seus esforços.

 
Renata Bernardis
 

Disposta a acabar com o estigma que carrega desde os anos 70, a indústria curtumeira tem investido grandes somas para tornar seus processos produtivos cada vez mais limpos. Afinal, para se obter sucesso nos dias de hoje é fundamental que as empresas estejam calçadas em produções ambientalmente corretas, norteadas por processos produtivos que empreguem tecnologias e produtos alternativos menos poluentes, primem pela utilização mais cuidadosa da água e de produtos químicos e garantam, ainda, o tratamento dos efluentes gerados.

“Ter uma boa estação de tratamento de efluentes é condição fundamental para que um curtume possa operar, pois a atividade requer elevado consumo de água. E, devolver essa água ao meio ambiente em boas condições é, portanto, fundamental para viabilizar a inserção do curtume em uma comunidade”, comenta Antonio Mattiello, engenheiro químico do Curtume Fridolino Ritter, que, com base nessa filosofia, desenvolveu ensaios piloto de tratamento de efluentes em 1978, implantou tratamento primário em 1981 e biológico em 1988. Fundado em 1944, o curtume industrializa 1.500 peles bovinas por dia, atendendo, com couros acabados, fábricas de calçados e de artefatos de couro do Brasil e do exterior.

O sistema de tratamento do Curtume Fridolino Ritter se dá pela segregação das diferentes correntes geradas nos processos de curtimento, o que permite a reciclagem de boa parte dos banhos, como o de caleiro. Por estarem separados também há vantagens no tratamento de contaminantes, como o lodo de caleiro, que sem os sais de cromo pode ser usado como fertilizante agrícola.

O tratamento é realizado em duas etapas. No primário são usados processos de coagulação/floculação, seguidos de decantação. O lodo que sai nessa etapa é disposto em aterro de resíduos industriais classe I. No tratamento secundário, também chamado biológico, o efluente passa por um valo de oxidação, uma variante de tratamento com lodo ativado. O processo garante alta eficiência na remoção de carga orgânica, refletindo nos parâmetros de DBO e DQO.

Mattiello relata que o Fridolino Ritter sempre viu em técnicas de tratamento primário, como os reciclos de banhos ou etapas de produção mais limpas, como o pré-descarne, vantagens ambientais, financeiras e, principalmente de competitividade. “O nível de concorrência hoje é tão alto em qualquer indústria que não se pode afirmar que produzir dentro do conceito de desenvolvimento sustentável seja garantia para a competitividade. Entretanto acreditamos que seja um dos alicerces, ou seja, quem não o adota já parte atrasado para uma competição cada vez mais global”, ressalta o engenheiro do curtume, que utiliza cerca de 600 litros de água por pele para o processo de tratamento completo, do salgado ao couro acabado. A vazão da ETE é de aproximadamente 750 m³ por dia.

Estado da arte
A estratégia da sustentabilidade ambiental da atividade industrial, na opinião de Hugo Springer, diretor de meio ambiente da Associação de Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (AICSUL) e também diretor da Springer, consultoria em gestão, tecnologia e desenvolvimento sustentável, decorre de várias forças impulsoras: consciência ambiental (derivada da educação ambiental); legislação ambiental; exigências de clientes e de mercados; custo de produção (decorrente do uso, muitas vezes, ineficiente de recursos materiais e de energia, incluindo ainda o custo de tratamento depurador de resíduos industriais e a dificuldade de repassar esses custos ao mercado); estímulos creditícios e fiscais, quando existem (voltados à eficiência energética e à redução da geração de resíduos sólidos, por exemplo) e; pressões da sociedade. “A produção industrial sustentável em muitas situações já é uma condição sine qua non para a sobrevivência e fortalecimento da empresa, bem como o incremento de seu market share no mercado globalizado. A produção sustentável reduz os riscos para pessoas e ambiente e diminui os custos relacionados com matérias-primas, água, energia e tratamento e disposição de resíduos, além de aumentar a eficiência e a produtividade”, diz, ao explicar que o volume de água usada por tonelada de pele salgada depende do tipo de couro processado (bovino, caprino, ovino, suíno, entre outros); de qual e até que estágio de fabricação o couro será processado (couro em sangue ou salgado até couro wet-blue, wet-blue a couro semi-acabado, wet-blue até acabado, em sangue ou salgado a acabado); do tipo de couro acabado desejado e das características físico-químicas, mecânicas e sensoriais que esse deverá ter; além do conjunto tecnológico específico adotado. Ele calcula que no caso de processamento de couro bovino conservado por salga, por exemplo, o estado da arte da tecnologia existente já permite o consumo de 12 a 37 litros de água/kg de matéria-prima couro, assim distribuído: 7 -25 l/kg na ribeira (remolho até purga); 1-3 l/kg em curtimento; 4-8 l/kg no pós-curtimento; 0-1 l/kg no acabamento.

Exportação
Springer também estima que as disponibilidades mundiais de matéria-prima couro (couro antes do processamento em curtume) são da ordem de 300 milhões de couros bovinos/ano e 900 milhões de couros ovinos e caprinos/ano, além de peles de animais menores. No caso de couros bovinos, o processamento completo (de couro conservado por salga até couro acabado) de 300 milhões de couros/ano, em escala mundial, com base em um consumo de 30 litros de água/kg, poderá contemplar um consumo total de água da ordem de 225 milhões de m3. No Brasil são processados cerca de 45 milhões de couros bovinos/ano, o que pode resultar no consumo de, aproximadamente, 34 milhões de m3 de água (na hipótese de processamento de couro salgado até acabado). Sobre a quantidade de substâncias químicas usadas para tratamento depurador de efluentes líquidos de curtume, o especialista arrisca o emprego de 8 mil toneladas/ano no Brasil e 54 mil toneladas/ano no mundo.

Estima-se que exista no Brasil cerca de 800 empresas curtidoras, a maioria de pequeno e médio portes, e que 74% da produção nacional seja destinada à exportação, o equivalente a 34 milhões de peças. Metade das peles processadas é direcionada à indústria calçadista; 10% atendem ao segmento de vestuário; 10%, ao setor moveleiro; e 30% vão para a indústria automobilística.

Os principais destinos do couro brasileiro, de acordo com dados da Secex/MDIC, são Itália (26,86%), China (20,30%) e Hong Kong (15,22%), vindo depois Estados Unidos, Coréia do Sul, Vietnã, Indonésia, Taiwan e Países Baixos.

Também se acredita que Brasil contabiliza um abate de 32 milhões de cabeças de gado/ano. Considerando que uma pele pesa 30kg, os curtumes reciclam 960 mil toneladas/ano de matéria orgânica, que não teria uso e geraria poluição. Afinal, o curtume transforma a pele animal, que é um passivo, e iria diretamente para o lixo, em uma matéria-prima nobre para a construção de calçados, roupas e estofados. A cadeia, do campo ao calçado, representa ao redor de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) e gera 600 mil empregos diretos no Brasil. Considerando a indústria de curtume com a indústria de calçados, o setor representa 4,5% da pauta de exportação nacional, sendo os couros responsáveis por 2%, e os calçados, por 2,5%.

 
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