H2OÁgua: A escassez de água é considerada, por muitos, como o principal desafio do século 21. Ficaremos sem água em alguns anos ou a situação é reversível?
Ivanildo Hespanhol: Para analisar a previsão atual sobre o futuro da água na Terra é interessante recordar a teoria de Robert Thomas Malthus. O demógrafo e economista inglês do século 17 propôs, em sua obra “Essay on Population”, de 1798, que o ritmo de crescimento populacional do planeta acontecia em progressão geométrica, enquanto o ritmo de produção de alimentos avançava em progressão aritmética e que, no encontro das curvas, faltaria comida para todos. Mas Malthus se esqueceu, ou não teve condições de avaliar, o desenvolvimento tecnológico na produtividade agrícola.
Enquanto as preocupações estão voltadas para a magra fatia de 0,3% de água doce hoje utilizada para consumo humano – já que 2% de água doce existentes no mundo estão presos em geleiras ou em regiões profundas, inacessíveis –, as pessoas deixam de perceber que as novas tecnologias de membranas, capazes de realizar trabalhos de dessalinização – processo em que o sal é tirado da água do mar, como já é feito em diversas cidades do mundo – é uma excelente alternativa em meio a um planeta composto por 97,5% de água salgada. E a tecnologia de membranas, particularmente as de osmose reversa e de sistemas de evaporação, com compressão de vapor, são adequadas para o processo de dessalinização. Além de permitirem a obtenção de água de boa qualidade a custos economicamente viáveis, ainda precisamos considerar que a grande concentração humana está localizada em áreas costeiras, minimizando os custos das grandes linhas adutoras que serão necessárias no futuro.
É fato que em algumas regiões da África, Ásia, Oriente Médio e Nordeste do Brasil, por exemplo, a disponibilidade hídrica é muito pequena e conflitos de uso e focos de escassez vão continuar a existir e a se agravar, mas não podemos admitir que o planeta Terra ficará totalmente sem água para os usos benéficos que mantêm a vida do planeta.
H2OÁgua: O senhor acredita que o abastecimento realizado por meio de reversão de bacias mudará?
Hespanhol: Na região metropolitana de São Paulo (RMSP), como em diversas outras do Brasil, o paradigma romano de 2 mil anos atrás, no qual aquedutos cada vez mais longos eram usados para transporte de água, continua. Temos hoje, em operação, o Sistema Rio Claro, que vem da região do Alto do Tietê, e o Sistema Cantareira, que capta água de Minas Gerais, do Sistema Jaguari.
Com 19,5 milhões de habitantes, os 39 municípios que compõem a área demandam, para abastecimento público, quase 70m³/s. Desse total, com base em conceitos de engenharia sanitária, que preconizam um coeficiente de retorno de 80%, é possível concluir que são gerados, na RMSP, cerca de 56m³/s de esgotos, e desse volume de rejeitos, 44m³/s são coletados, mas apenas 11m³/s são tratados. Ou seja, o restante segue “in natura” para os rios da região.
Há algum tempo vem sendo proferida a necessidade de maior demanda de água que, apesar de considerar a reversão de bacias hidrográficas, como a do rio Ribeira de Iguape, mantém o ortodoxo paradigma romano, já que a bacia está a, aproximadamente, 100 quilômetros da RMSP. A vazão prevista para a primeira etapa é de 30m³/s, o que pode resultar em conseqüências ambientais negativas para a região, pois serão gerados 24m³/s de esgotos, que serão dispostos “in natura” nos já extremamente poluídos corpos receptores da região.
Devemos, portanto, substituir os critérios romanos por um novo paradigma que se concentra nas palavras-chave conservação e reúso de água. É preciso considerar que destes 70m³/s apenas 25m³/s são usados para fins potáveis e os 45m³/s restantes podem ser utilizados para descarga sanitária, irrigação de áreas verdes e quadras esportivas, lavagem de ruas e veículos, na construção civil, na indústria, reserva de incêndio, entre muitos outros que não requerem água potável.
H2OÁgua: Se o reúso é um modelo de gestão de recursos hídricos, capaz de ajudar a reverter esse cenário, por que ele ainda não é aplicado em todas as situações possíveis?
Hespanhol: Em primeiro lugar há necessidade de desenvolver um arcabouço legal para a prática de reúso no Brasil. Alguma coisa já foi feita, mas ainda há muito caminho pela frente. É necessário regulamentar o reúso agrícola, industrial, para aqüicultura, usos urbanos não potáveis, recarga gerenciada de aqüíferos, entre outros. Também precisamos de decisão política capaz de estimular as companhias de saneamento, por exemplo, a aplicar o reúso de uma maneira macro, para substituir, como no caso da RMSP, os 453m³/s de água potável por água de reúso. Essa função caberia à Agência Nacional de Águas (ANA), que poderia tomar a dianteira para promover, estimular, desenvolver e disseminar tecnologia e, eventualmente, subsidiar o reúso. Caso contrário, as companhias de saneamento não se interessarão pela prática. A água para a indústria, na RMSP, é vendida a R$ 8,75 por metro cúbico, enquanto a água de reúso atinge custos inferiores a R$ 2,00 por metro cúbico. Será que as companhias de saneamento se interessarão pelo reúso dentro desse cenário econômico financeiro negativo?
H2OÁgua: O ritmo e as soluções adotadas pelas indústrias brasileiras são adequados?
Hespanhol: As indústrias brasileiras, principalmente as paulistas, já estão fazendo grandes investimentos em sistemas de tratamento avançados e de reúso para os seus próprios efluentes. Os sistemas de membranas, que permitem reúso de 80% dos efluentes, estão sendo, cada vez mais, utilizados pela indústria. E as companhias de saneamento também deverão, dentro de alguns anos, adotar essas soluções para reduzir as áreas das estações de tratamento e produzir água de melhor qualidade.
A cobrança pelo uso da água, que se inicia em São Paulo, e a importância de manter uma imagem ambiental saudável também têm estimulado a indústria a adotar os conceitos de conservação e reúso de água.
Vale lembrar ainda que, atualmente, há disponibilidade de recursos para investimentos oriundos dos setores privado e público, graças às modalidades de financiamento Build-Transfer-Operate (BTO) e Build-Own-Operate (BOO), e bancos oficiais e privados que proporcionam recursos dentro da chamada linha verde, com melhores condições financeiras.
H2OÁgua: Essa mudança de postura reflete a consciência adquirida de que a água precisa ser preservada ou reluz a maior rigidez imposta pelos governos brasileiros?
Hespanhol: O reúso é praticado em razão da economia que proporciona, pois permite a redução substancial da conta de água. Nas bacias onde já são efetuadas as cobranças pelo uso da água o reúso se tornou ainda mais importante, pois reduz os custos associados às outorgas tanto de captação como as de lançamentos de efluentes. Por outro lado, a imagem ambiental é hoje mais importante que muitos investimentos em marketing e propaganda e, por isso, a mudança de postura não acontece apenas nas indústrias, mas em todos os setores da economia.
H2OÁgua: A existência de uma legislação específica que limite o controle e incite o reúso de água pode mudar essa realidade?
Hespanhol: Sem dúvida. Precisamos de uma legislação que atue em cinco frentes: reúso agrícola, para uso humano não potável, aqüicultura, indústria e recarga gerenciada de aqüíferos.
Acredito que a Agência Nacional de Água poderia liderar essa iniciativa para incentivar e difundir tecnologias para reúso, por meio da promoção de benefícios legais para quem prover atitudes responsáveis, por exemplo.
As perdas nos sistemas são hoje brutais, chegam a 60% em algumas cidades em função de vazamentos e roubo de água. E somos nós, consumidores, que pagamos por isso, pois o orçamento das companhias de saneamento não é afetado.
Felizmente a indústria tem desenvolvido soluções que podem, no futuro, mediante um bom trabalho de educação ambiental, mudar o cenário de hoje.
Já existem disponíveis no mercado máquinas de lavar roupas que utilizam 80 litros para 5 quilos, e não mais 160 litros. Também podem ser encontradas caixas acopladas modernas, que só usam quatro litros a cada vez e representam uma grande economia perante as válvulas de descarga, que gastam dois litros por segundo. E é bom lembrar que, geralmente, as pessoas ficam dez segundos com o dedo no botão.
H2OÁgua: Embora não aborde especificamente reciclagem de água, o marco regulatório do saneamento, aprovado em 12 de dezembro, servirá como estímulo à essa prática?
Hespanhol: Acredito que sim, pois embora o marco regulatório não especifique a palavra reúso, ele estimula o uso racional e o reúso já está implícito nesse conceito. Entretanto, os conceitos de conservação e reúso vão crescer rapidamente porque estão associados tanto à preservação de recursos como à sustentabilidade econômica de municípios, empresas e, particularmente de cada indivíduo que possui uma ligação de água em sua casa.
H2OÁgua: Como seria o modelo de gerenciamento de recursos hídricos ideal para o Brasil?
Hespanhol: Nosso gerenciamento hoje é bom, pois é feito por bacia hidrográfica, o que ainda não acontece em grande parte de outros países da América do Sul. Essa estrutura de gestão adequada é suportada por uma legislação moderna e completa que classifica os cursos de água e estabelece padrões de qualidade para lançamento de efluentes. O modelo vem se completando atualmente com a instalação dos Comitês de Bacia, que atuam como verdadeiros parlamentos da água em suas respectivas áreas de gestão.
Seria muito importante estimular o reúso na agricultura, pois esgotos domésticos adequadamente tratados não levam apenas água, mas aportam, também, nutrientes, como nitrogênio, fósforo e potássio, micronutrientes e matéria orgânica, que aumentam a capacidade do solo em reter água. No Brasil, a agricultura utiliza cerca de 70% de toda a água doce disponível, enquanto esse percentual mundial é de 80%. A tendência brasileira é de aumentar rapidamente as áreas irrigadas, principalmente por razões econômicas e de produtividade agrícola. Para se ter uma idéia da importância da agricultura irrigada basta mencionar que o Brasil tem, hoje, aproximadamente 55 milhões de hectares agricultados, dos quais apenas 5% são irrigados. E esses 5% são responsáveis por 14% da produção nacional de alimentos. Há que se estimular também a utilização de sistemas de irrigação mais eficientes em termos de uso de água, tanto nos sistemas de aplicação como nos de transporte de água. |