A AcquaBrasilis, empresa especializada em projeto e instalação de sistemas de tratamento de água, desenvolveu para o edifício Eldorado Business Tower, construído pela Gafisa, dois sistemas que somam pontos para que a obra obtenha a certificação LEED de impacto ambiental. Trata-se de sistemas para redução de sólidos e tratamento para aproveitamento da água.
“Os dois projetos da AcquaBrasilis garantiram ao edifício corporativo 4 pontos, o equivalente a 10% da pontuação almejada pelo empreendimento”, diz Anderson Benite, diretor de sustentabilidade da consultoria CTE – Centro de Tecnologia de Edificações.
“A avaliação e certificação LEED, emitida pelo Green Building Council do Brasil, tem dupla abrangência no que se refere à água”, afirma Sibylle Muller, engenheira e especialista em gestão e tecnologia ambientais e diretora da AcquaBrasilis. Segundo ela, a primeira exige redução de consumo e de lançamento na rede pública. No caso da água da chuva, não podem ser criados escoamentos superficiais. Ou seja, ao cair sobre superfície impermeável, essa água vai escoar pela superfície e o volume não pode ser maior do que era antes da obra, no terreno natural. “No Eldorado Tower o problema foi contornado com a criação de áreas verdes, permeáveis”, diz. A qualidade da água, inclusive a da rede pluvial, é outro aspecto considerado pelo LEED, baseado em legislação americana. “A água só pode ser lançada na rede pública depois de ter removida parte dos seus contaminantes. O parâmetro da qualidade exigida é a concentração de partículas, medida como sólidos suspensos”, explica.
Separação de resíduos
Um dos projetos desenvolvidos pela AcquaBrasilis para a obra foi o de remoção anual de 80% dos sólidos suspensos presentes nas águas pluviais descartadas na rede pública, que contou 1 ponto para o LEED. “Utilizamos tecnologia que adquirimos de empresa dos Estados Unidos, constituída de unidade de separação por vórtice”, relata Gustavo Prado, engenheiro e coordenador técnico dos projetos da AcquaBrasilis.
Toda a captação da água pluvial do edifício é feita por duas bacias coletoras: uma lança a água pluvial coletada num poço de visita (PV), localizada na extremidade do terreno e, de lá, segue para o rio Pinheiros. O maior volume de água corre por essa galeria, com tubulação de aproximadamente 700mm. A outra bacia coletora deságua na rede pública.
“A unidade de retenção de sólidos está instalada em uma configuração conhecida como ‘offline’, como um apêndice da rede principal. A rede toda é formada por um PV de montante, a unidade de tratamento e um PV de jusante”, diz o engenheiro, lembrando que toda a fachada do edifício também faz parte da bacia coletora do prédio. A unidade é constituída por vários cilindros concêntricos. Em seu interior, um cone invertido e um cone no fundo formam a região de acúmulo dos sólidos. “Devido aos componentes internos do separador hidrodinâmico por vórtice, a água carregada de sólidos em suspensão descreve movimento espiralar descendente, que muda de sentido na parte inferior da unidade. As partículas densas presentes na água sofrem a ação da força de inércia, permanecendo próximas às paredes externas do separador e são varridas para dentro da região de acúmulo de sólidos em decorrência de escoamentos secundários, ocasionado pela mudança de sentido do movimento do fluido. A água que sobe em movimento helicoidal até a saída da unidade encontra-se virtualmente livre de partículas, atingindo 80% de redução na concentração de sólidos suspensos”, complementa.
Sistema de tratamento e aproveitamento
O edifício Eldorado Tower ganhou um sistema de tratamento e aproveitamento de água de condensação do ar-condicionado e, também, da água pluvial, que soma 3 pontos para a certificação. Serão usadas para irrigação de áreas verdes – somente aqui serão 2 pontos, pois a água tratada deverá responder por 100% da irrigação –, vasos sanitários do térreo e subsolos, lavagem de pisos das garagens e para o espelho d’água. De acordo com o LEED, não se pode colocar nenhuma torneira da concessionária de água dentro desse sistema. “O prédio adotou sistema de condicionamento de ar importado, que opera através de minicentrais. Ao contrário dos sistemas convencionais, que exigem que se acrescente água para seu funcionamento, ele propicia o aproveitamento da água que nele se condensa”, esclarece o engenheiro da AcquaBrasilis. Por condensação, o ar-condicionado do edifício gera 100m³ por mês de água durante o período de inverno, 200m³ no verão e, no período de meia estação, 150m³. A destinação natural dessa água seriam as águas servidas ou o sistema de drenagem de água pluvial.
“Água que em prédios convencionais é desperdiçada, no Eldorado Tower é direcionada para um tanque de água bruta (sem tratamento) que se junta a outra fonte de água bruta, a da chuva”, explica. Do reservatório, essas águas são bombeadas para o sistema de filtração. O primeiro filtro faz a remoção de sedimentos e, em seguida, a água passa por cloração, em linha, a partir de uma bomba dosadora e uma tina com hipoclorito de sódio (água sanitária). A partir daí, a água é encaminhada para o reservatório de água tratada”, acrescenta o especialista.
A miniestação é automatizada e o papel do operador se restringe a checar a programação de retrolavagem dos filtros e a necessidade eventual de inversão de fluxo. “A válvula que equipa os filtros tem medidor de vazão e acumulador de volume, permitindo medir o volume de água tratada e usada para fazer a retrolavagem. Subtraindo, descobre-se a produção efetiva do filtro, o quanto economizou e a quantidade de água que deixou de usar da concessionária. Quanto maior for a demanda de água, mais rapidamente o sistema se paga”, ensina.
Desde o canteiro
O sistema desenvolvido e implantado pela AcquaBrasilis no canteiro de obras durante a construção do edifício foi similar ao sistema definitivo. “Trata-se de um sistema simplificado, manual, com remoção do ferro existente na água do lençol freático, que permitiu o aproveitamento da água subterrânea para atividades necessárias durante a construção. Os dois sistemas têm a mesma vazão nominal de 2,5m³/h. Outra exigência do LEED é controlar a quantidade e o tempo de descarte de grandes volumes de água de chuva na rede pública, o que exige controle e uma lógica de automação: a água coletada no reservatório (piscininha), quando atinge um certo nível, não pode ser lançada automaticamente, deve ser liberada aos poucos para evitar enchentes”, complementa a engenheira Sibylle Muller. |