Idealizado pelo casal de exploradores Gérard e Margi Moss, o projeto Rios Voadores tenta descobrir o DNA das chuvas que caem sobre o País e com isso aprofundar os estudos sobre o transporte de vapor d'água da Bacia Amazônica para outras regiões do Brasil e da América do Sul. O nome do projeto tem uma explicação: os chamados rios voadores são correntes de ar que carregam umidade do Norte ao Sul do Brasil e a quantidade de vapor d'água transportada por essas massas de ar tem volume que pode ultrapassar a vazão de todos os rios do Centro-Oeste, Sul e Sudeste ou até ter a mesma ordem de grandeza da vazão do maior rio do mundo, o Amazonas (200 mil metros cúbicos por segundo).
A pesquisa procura responder a algumas questões, entre elas, como o desmatamento da Amazônia afetará o clima no restante do País; de que forma essa degradação afetará as chuvas das regiões Sudeste e Sul, de maior produção de energia hidroelétrica, e como essa umidade chega do Norte ao Sul do Brasil. Além disso, o projeto também tenta aproximar a população dos centros urbanos das grandes questões que envolvem a Amazônia e alertá-la sobre o uso racional dos recursos naturais. Além disso, Rios Voadores procura revelar para o grande público a verdadeira nascente dos recursos hídricos brasileiros.
Rios Voadores tem a coordenação do cientista Enéas Salati, que também é diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), conhecido internacionalmente por seu trabalho com técnicas isotópicas na Amazônia. Segundo ele, ainda existem dúvidas a respeito de qual seria o valor exato da contribuição da Amazônia para o regime de chuvas das regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste: “O projeto tem entre outros objetivos tentar quantificar com mais precisão esses valores.”
Coleta
A bordo do monomotor Sertanejo, o piloto Gérard Moss tem percorrido várias regiões do Brasil, realizando coletas de vapor d'água. Desde o início do projeto, em junho de 2007, já foram realizados seis vôos. As mais recente expedições, em fevereiro e abril, foram um verdadeiro sucesso, já que conseguiram percorrer a mesma trajetória de uma corrente de ar específica, ou seja, um rio voador. A idéia do piloto Gérard Moss, que também é engenheiro mecânico, é fazer um vôo de coleta de amostras por mês até a conclusão do projeto, no final do ano.
Para saber o percurso que deve seguir, o piloto conta com conselhos detalhados de meteorologistas da CPTEC/Inpe, situado em Cachoeira Paulista (SP). Os experts dispõem de um computador de 16 processadores, com 32 Gb de memória e 64 Gflops de performance de pico, que faz uma previsão numérica de tempo em área limitada. A máquina é baseada no modelo BRAMS, criado pela CPTEC/Inpe em agosto de 2005. Sendo assim, é possível definir o deslocamento das massas de ar em 48 horas e segui-las.
Já para realizar a coleta, o avião dispõe de um equipamento capaz de captar o ar ambiente. Assim que é coletado, esse ar é direcionado a um tubo de vidro, que é resfriado para condensar a umidade e transformá-la em uma gota. A análise posterior dessa água procura definir a procedência dessa massa de ar e estabelecer a proporção das gotas de água coletadas, que têm origem no mar, nos rios ou na evaporação feita pelas árvores. Essas análises estão sendo feitas pela equipe do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) sob a responsabilidade do professor Reynaldo Luiz Victoria.
Expedições
Na quinta expedição, realizada em fevereiro, Gérard Moss, acompanhado por Tiago Iatesta e Júlio Fiadi, saiu de Belém (PA), passou por Santarém (PA), Manicoré (AM), Porto Velho (RO), Vilhena (RO), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS) e finalmente chegou a Piracicaba (SP). De acordo com ele, o caminho percorrido pode confirmar uma das principais hipóteses do projeto: a umidade que sai da Amazônia se espalha pelo resto do Brasil e é responsável por uma parte das chuvas no Sul do país. As amostras estão sendo analisadas no Centro de Energia Nuclear na Agricultura em Piracicaba. "Tivemos uma amostragem perfeita do trajeto de um rio voador, saindo da foz do rio Amazonas em direção ao oeste e logo traçando uma curva até o sul", explica Gérard.
Para acertar o caminho exato desse rio voador, Gérard contou com as previsões do computador do CPTEC/Inpe. Mesmo assim, ele salienta que é preciso tomar cuidado para não tirar conclusões precipitadas. "As análises isotópicas de todo o percurso já foram realizadas. No entanto, a interpretação requer estudos mais aprofundados. Por enquanto, percebemos que os dados confirmam a trajetória que a umidade realiza da Amazônia para o Sul, incluindo uma recarga de umidade na hora em que a trajetória passou por cima do Pantanal. Temos que esperar os resultados das amostras para confirmar esses dados e averiguar, por exemplo, qual a proporção do vapor d'água coletado que tem origem na Amazônia, nos rios e no mar", comentou.
A sexta expedição, realizada em abril, teve como destino o Pantanal e arredores, passando por Corumbá, o noroeste do Paraná e o oeste do estado de São Paulo. O objetivo foi estudar o Pantanal como um provedor de umidade para o restante do País, sabendo que uma parte da umidade que sai da Amazônia transita pela região. “Foi um vôo bem interessante, pois coletamos amostras em situações bem opostas. Inicialmente, os ventos eram fortes vindos do Norte e Noroeste. No final da expedição, os ventos já vinham do Sul e Sudoeste, com entrada de uma frente fria. Essa transição do Norte para o Sul pôde ser medida e sem dúvida enriquecerá nossos estudos”, conta Gérard Moss.
De acordo com o coordenador científico do projeto, Enéas Salati, o Pantanal é um local que merece uma atenção especial, pois do total que chove na região, apenas 20% sai pelos rios. O restante volta para a atmosfera na forma de vapor. “Como é uma área inundada, o local está em constante evaporação”, explica. Segundo o professor, as amostras coletadas na região poderão ajudar a análise sobre a quantidade de vapor d’água que sai do Pantanal para outras localidades do Brasil.
As outras expedições do projeto, realizadas no ano passado alcançaram cidades espalhadas em toda a Amazônia brasileira, desde Belém e Santarém (PA) até Manaus e Tefé (AM), São Luís (MA), Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO). Além das expedições, a equipe do projeto também realiza periodicamente vôos num hidroavião para coletar amostras de superfície (rios, lagos, córregos e represas).
Para junho, Gérard Moss está programando um vôo de Mato Grosso à Bahia para definir a ocorrência de zonas que recebem e as que não recebem influências da umidade que vem da Região Amazônica.
O projeto Rios Voadores é uma extensão do projeto Brasil das Águas, que desde 2003 tem como patrocinador master a Petrobras, dentro do Programa Petrobras Ambiental. Conta também com a parceria da Agência Nacional de Águas, BR Aviation e Chubb Seguros, entre outras empresas e instituições.
Para mais informações acesse o site: www.riosvoadores.com.br |